O silêncio das organizações internacionais diante das tarifas e sanções impostas por Donald Trump é resultado de um “desmonte racional” do sistema multilateral, segundo especialistas. O Brasil, afetado por tarifas, busca resposta via OMC, mas enfrenta entraves institucionais. Esforços para articulação conjunta com o Brics e outras coalizões avançam lentamente devido a interesses distintos e fatores geopolíticos.
Desmonte das instituições multilaterais
A ausência de respostas efetivas das organizações internacionais às ações unilaterais do presidente americano Donald Trump é vista como parte de um processo de “desmonte racional” do sistema multilateral. Especialistas ouvidos pelo g1 destacam o enfraquecimento de acordos multilaterais e o sucateamento de instituições como a Organização Mundial do Comércio (OMC). “Temos observado nos últimos anos o nível de desmonte que o sistema multilateral vem sofrendo. No caso das tarifas, a OMC seria o principal órgão a coibir a ação dos EUA, mas a instituição está com problemas de funcionamento desde o primeiro mandato de Trump”, afirma a professora Cristina Pecequilo. Ela ressalta que o desmonte não foi revertido pelo governo Biden, o que dificulta a intervenção contra as políticas protecionistas americanas.
Desde 2025, Trump tem ampliado sanções a diversos países, inclusive aliados, com restrições econômicas e punições políticas, como a retirada de vistos de autoridades brasileiras. O secretário de Estado americano, Mario Rubio, anunciou a medida vinculando-a ao programa Mais Médicos.
Ação brasileira na OMC e impasses
No início do mês, o governo brasileiro protocolou uma ação na OMC contra as tarifas dos EUA, alegando violação dos compromissos multilaterais. As regras da OMC proíbem medidas unilaterais, exigindo que disputas sejam resolvidas no âmbito da organização. No entanto, a ação corre risco de ficar paralisada, pois desde 2019 os EUA vetaram a nomeação de juízes para o Órgão de Apelação, instância final de julgamento. “Fica a dúvida de como isso poderá ser julgado e se pode virar contencioso. Se torna uma espécie de limbo”, analisa Pablo Bernardo, especialista em direito internacional.
O fluxo da ação prevê pedido de consultas, formação de painel, decisão e possível apelação — esta última inviabilizada pela falta de funcionamento do órgão. Sem apelação, o Brasil poderia pedir autorização para retaliar os EUA.
Alternativas e articulação internacional
Diante do vazio institucional da OMC, especialistas apontam que uma resposta coordenada entre os países afetados ganha força, embora seja dificultada por divergências políticas, econômicas e geoestratégicas. “A resposta de uma frente unida é mais complicada. A União Europeia, quando tem oportunidade, se alinha com os Estados Unidos. O Brasil deve buscar coalizões Sul-Sul”, avalia Pecequilo.
Brics e desafios para resposta conjunta
O governo brasileiro tem buscado articulação com o Brics — bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O presidente brasileiro conversou com representantes da Rússia, China e Índia, incluindo diálogo recente com Xi Jinping. Segundo o analista Apolinário, China e Índia compartilham críticas ao protecionismo dos EUA e defendem a centralidade da OMC, mas o posicionamento conjunto depende de conciliar diferentes prioridades nacionais.
Trump, por sua vez, realizou reunião com Vladimir Putin no Alaska, ao mesmo tempo em que ameaça taxar os Brics e atua como negociador no conflito da Ucrânia. Para Apolinário, tais fatores podem deslocar o foco diplomático para questões de segurança, enfraquecendo a coesão em torno da agenda comercial, mas não inviabilizam totalmente uma resposta coordenada se o grupo mantiver o foco econômico.