Empresas brasileiras que tentam evitar a tarifa de 50% dos Estados Unidos por meio da triangulação, enviando produtos para um país intermediário antes do destino final, podem enfrentar multas, sanções e processos judiciais.
A prática, considerada fraude por autoridades americanas e pela OMC, pode prejudicar a reputação das empresas e inviabilizar negócios futuros, segundo advogados e especialistas em comércio internacional.
O que é triangulação e por que é ilegal
Triangulação é uma estratégia em que empresas exportam produtos para um país intermediário antes de enviá-los aos Estados Unidos, buscando evitar tarifas comerciais elevadas. A manobra, no entanto, é considerada fraude aduaneira, pois viola as regras de origem dos produtos estabelecidas por acordos internacionais e pela Organização Mundial do Comércio (OMC).
De acordo com especialistas, a prática consiste em declarar que o produto foi originado no país intermediário, tentando se beneficiar de acordos comerciais ou tarifas menores. Porém, as autoridades aduaneiras dos EUA podem identificar a fraude e aplicar multas, exigir o pagamento dos tributos devidos, reter mercadorias e até iniciar processos criminais contra as empresas envolvidas.
Uma ordem executiva do ex-presidente Donald Trump determinou punições fiscais severas para quem tentar a manobra, reforçando o risco para exportadores brasileiros.
Exceções e alternativas legais
Alterar o local de industrialização é permitido se houver transformação substancial do produto no país intermediário. Segundo o advogado tributarista William Crestani, “se houver uma transformação relevante, ele pode ter a origem no país onde passou por essa mudança e, consequentemente, pagar as tarifas daquele país”. No entanto, Crestani ressalta que não há definição clara do que é considerado transformação substancial pelos EUA, e cada caso é analisado individualmente, sem garantia de aceitação pela alfândega americana.
Impactos nos setores de carne bovina e café
Frigoríficos brasileiros e suas estratégias
Empresas como Marfrig, Minerva e JBS possuem operações em outros países, o que lhes permite exportar carne bovina para os EUA sem depender exclusivamente das plantas brasileiras. A Minerva utiliza suas unidades na Argentina, Paraguai, Uruguai e Austrália, e afirmou que o tarifaço pode afetar no máximo 5% de sua receita total. Já a Marfrig exporta carne para os EUA a partir do Uruguai e Argentina, e informou que as exportações brasileiras representaram apenas 1,4% das vendas na América do Sul e 0,18% da operação global em 2025.
A JBS, que também atua nos EUA, México e Austrália, representa cerca de 15% das exportações brasileiras de carne bovina para o mercado americano. Recentemente, a empresa anunciou investimentos de US$ 200 milhões em novas plantas no Texas e Colorado, e prevê melhora na disponibilidade de gado nos EUA apenas a partir do final de 2027.
Apesar de menos impactadas pelo tarifaço, Marfrig e JBS têm articulado com empresas e com o governo americano para tentar isentar a carne bovina brasileira da sobretaxa, segundo o presidente da Abiec, Roberto Perosa.
Rota europeia para o café brasileiro
No setor cafeeiro, países como a Alemanha compram grãos brasileiros, industrializam e reexportam para outros mercados, incluindo os EUA. A Alemanha foi o maior reexportador de café entre maio de 2024 e abril de 2025, com 13 milhões de sacas vendidas, conforme a Organização Internacional do Café. O economista José Roberto Mendonça de Barros prevê que, com o tarifaço, esse tipo de operação deve se intensificar, já que a Europa transforma o café brasileiro em produto final antes de enviá-lo aos EUA.