Samuel Pessoa, economista do BTG Pactual e FGV, avalia que as tarifas impostas por Donald Trump sobre produtos chineses podem indiretamente reduzir a inflação no Brasil. Segundo ele, a medida valoriza a moeda chinesa, barateando importações brasileiras e favorecendo o ambiente econômico. Pessoa acredita que esse cenário pode beneficiar o presidente Lula nas eleições.
Ele destaca que, mesmo com desaceleração econômica prevista, o mercado de trabalho não deve ser fortemente impactado e a inflação de alimentos já está cedendo.
Cenário econômico e efeitos das tarifas
Para Samuel Pessoa, o Brasil deve enfrentar um “pouso suave” na economia, com crescimento de 2% neste ano e 1,5% no próximo, desacelerando em relação aos 3% dos anos anteriores. Apesar disso, o economista ressalta que o mercado de trabalho não será gravemente afetado, e a inflação de alimentos tende a cair graças às boas safras.
Pessoa explica que as tarifas americanas sobre produtos brasileiros, como laranja e café, podem reduzir a inflação no país ao aumentar a oferta interna desses produtos. “Exportando menos, vai sobrar mais laranja e café para o mercado doméstico, pressionando o preço um pouquinho para baixo”, afirma.
O economista pondera, porém, que o efeito deflacionário é multifatorial e depende do comportamento dos mercados internacionais, já que commodities como carne, café e laranja têm preços globais. No caso do suco de laranja, o impacto pode ser maior, pois os EUA importam 90% do suco que consomem, sendo o Brasil responsável por 80% desse total.
Retaliação e cálculo eleitoral
Pessoa defende que Lula tem incentivo a não retaliar as tarifas de Trump, pois a ausência de retaliação pode contribuir para uma “desinflaçãozinha” a médio prazo, o que seria positivo para o cálculo eleitoral do presidente. “Se a gente se enxerga com pouco poder de barganha, do ponto de vista do interesse do bem estar brasileiro, é melhor não retaliar”, diz.
Ele também cita que retaliações podem ser instrumentos de barganha, mas que, dada a posição do Brasil, uma resposta generalizada não seria produtiva.
Política fiscal e programas de socorro
Pessoa alerta para o risco de políticas de socorro a setores afetados pelas tarifas se transformarem em “direitos adquiridos”. Ele cita o exemplo do Perse, criado para o setor de eventos durante a pandemia, que seguiu em discussão mesmo anos após o fim da crise. O economista defende que programas emergenciais devem ter regras claras de término.
Sobre o cenário fiscal, ele reconhece que o Brasil enfrenta um problema estrutural desde 2014, agravado a partir de 2022. Para setores muito afetados, como o de laranja, Pessoa sugere crédito extraordinário com cláusulas de saída bem definidas, mesmo que isso pressione as contas públicas.
Repercussão internacional e postura do governo
Pessoa discorda de Paul Krugman quanto à eficácia de retaliações brasileiras e afirma que o país tem pouco poder de barganha frente aos EUA. Ele critica a postura de confronto retórico do governo Lula e sugere uma abordagem mais moderada, semelhante à da União Europeia, que preferiu não retaliar Trump.
O economista enfatiza que o setor privado americano pode ser aliado do Brasil contra as tarifas, já que também é prejudicado. Ele acredita que as tarifas podem ser revertidas pelo Supremo Tribunal dos EUA, pois seriam ilegais.
Perspectivas para 2026
Pessoa mantém a avaliação de que Lula chegará às eleições de 2026 com a economia em boa forma, mesmo com as tarifas de Trump em vigor. Ele ressalta, contudo, que o resultado eleitoral dependerá de outros fatores além da economia.