O presidente americano Donald Trump anunciou novas tarifas de importação para países que continuam negociando com a Rússia, caso não haja cessar-fogo na Ucrânia até 8 de agosto. A Índia foi a primeira a ser punida, com tarifas adicionais sobre o petróleo russo. A medida pode elevar custos globais, afetar exportadores europeus e pressionar a economia russa, já próxima da recessão.
As tarifas secundárias podem chegar a 100% sobre produtos de países que mantiverem negócios com Moscou, incluindo grandes importadores de petróleo como China, Índia, Turquia e Brasil. Especialistas alertam para impactos nos preços da energia e riscos de inflação mundial.
Impactos das tarifas na economia global
O relacionamento comercial entre Estados Unidos e União Europeia é o maior do mundo, mas novas tarifas de importação de 15% já afetam exportações europeias. Agora, as sanções secundárias propostas por Trump podem impor tarifas de até 100% a países que comprarem combustíveis russos, reduzindo o volume de mercadorias vendidas para os EUA e encarecendo produtos como máquinas e farmacêuticos.
O objetivo de Trump é enfraquecer o financiamento russo à guerra na Ucrânia, pressionando parceiros comerciais da Rússia. O presidente declarou: “Usei o comércio para muitas coisas, mas ele é ótimo para resolver guerras”. A medida já foi utilizada contra o petróleo venezuelano, mas seu uso contra a Rússia pode ter consequências globais muito maiores, já que o país é o terceiro maior produtor de petróleo do mundo.
Reação dos países afetados
A Índia, maior importador de petróleo russo depois da China, foi alvo imediato das tarifas, que elevaram a taxa de importação para 50% sobre produtos indianos. O governo indiano acusou os EUA de “dois pesos, duas medidas”, pois Washington ainda importa produtos russos, principalmente matéria-prima para energia nuclear e fertilizantes.
O Brasil também é citado: 70% do óleo diesel importado pelo país vem da Rússia, segundo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A China, maior cliente de petróleo russo, pode ser um desafio ainda maior para a aplicação das tarifas, já que suas exportações para os EUA são cinco vezes maiores que as da Índia e incluem bens de consumo essenciais.
Consequências para a Rússia e Europa
A economia russa, que cresceu 4,3% no ano passado, está “à beira” da recessão, segundo o ministro Maxim Reshetnikov. O FMI prevê crescimento de apenas 0,9% em 2025. O governo russo depende da exportação de combustíveis para financiar cerca de um terço de seus gastos, mas as vendas estão em queda. Enquanto isso, a União Europeia e a Turquia seguem entre os principais compradores de combustíveis russos, apesar das restrições.
Pressão sobre preços e inflação
Segundo Kieran Tompkins, da Capital Economics, o principal impacto das tarifas secundárias será sobre os preços da energia. Se as tarifas interromperem o fluxo de petróleo russo, a oferta global diminui e os preços podem subir, como já ocorreu em 2022 após a invasão da Ucrânia. Trump, porém, minimiza o risco inflacionário, citando o recorde de produção americana.
Tompkins ressalta que a Opec+ tem capacidade ociosa para compensar parte da demanda, e a Rússia já desenvolveu mecanismos como a “frota-sombra” para burlar sanções. Richard Nephew, da Universidade Columbia, alerta que “a manutenção das sanções é uma tarefa tão grande quanto sua criação”, pois países sancionados buscam alternativas para escapar das restrições.
Repercussão em setores e países
As tarifas podem tornar produtos como iPhones fabricados na Índia mais caros para consumidores americanos, já que a Apple transfere parte da produção para lá. Importadores tendem a repassar o custo das tarifas para os clientes finais.
No caso da China, especialistas como Simon Evenett destacam que tarifas de três dígitos podem quase eliminar o comércio bilateral, prejudicando negociações e aumentando a inflação nos EUA. A imposição dessas tarifas também pode custar empregos em setores industriais chineses em crise.
Na Europa, líderes como Ursula von der Leyen reconhecem a dependência energética da Rússia e buscam alternativas, mas temem que sanções secundárias agravem ainda mais a situação dos exportadores europeus, já afetados por tarifas americanas recentes.