Integrantes do governo Lula consideram improvável que o Brics adote uma resposta conjunta ao tarifaço dos EUA. Apesar do desejo do presidente, as diferentes situações dos países em relação a Washington dificultam o consenso.
Lula afirmou que pretende discutir o tema com líderes do bloco, mas fontes do governo destacam que cada país já traçou sua própria estratégia diante das sobretaxas impostas por Donald Trump.
Impactos do tarifaço e posições dos países
O Brics atualmente reúne Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, com a Arábia Saudita participando das reuniões sem adesão formal. O Brasil foi atingido por uma sobretaxa de 50% sobre exportações aos EUA, enquanto a Índia enfrenta tarifa de 25%, que deve subir para 50% devido ao comércio com a Rússia.
Fontes do governo brasileiro ressaltam que, apesar das críticas de Trump ao bloco, não há uma tarifa específica para todos os seus integrantes. Cada país busca soluções próprias, e nem todos estão dispostos a criticar publicamente os EUA, dada a dependência econômica variada em relação ao mercado norte-americano.
Articulação diplomática de Lula
Em entrevista à Reuters, Lula afirmou que pretende conversar com os demais líderes do bloco para entender o impacto das tarifas em cada país. Já dialogou com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, e planeja falar com o presidente da China, Xi Jinping, além de outros líderes do Brics. “Vou tentar fazer uma discussão com eles sobre como cada um está dentro da situação, qual é a implicação que tem em cada país, para a gente poder tomar uma decisão”, disse Lula.
O Brasil ocupa atualmente a presidência rotativa do Brics, que será transferida para a Índia em janeiro de 2026.
Dificuldades para consenso e estratégias do Brasil
As divergências internas do bloco dificultam uma resposta conjunta que vá além de declarações de defesa do multilateralismo e da Organização Mundial do Comércio (OMC). No caso brasileiro, o impacto do tarifaço é agravado por questões políticas, já que Trump tenta interferir no Supremo Tribunal Federal (STF) para beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar.
Lula considera essa interferência um ataque à soberania nacional. Auxiliares do presidente avaliam que não há, no momento, disposição real de Trump para negociar a redução da sobretaxa de 50% aos produtos brasileiros.
Como alternativa, o governo busca diversificar mercados, focando em negociações bilaterais com países do Brics, como a Índia, e também com parceiros externos, como México e Canadá. O vice-presidente e ministro da Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, liderará missões empresariais ao México neste mês e à Índia em outubro, visando reduzir a dependência das exportações brasileiras em relação aos EUA.