Empresas brasileiras importaram US$ 13 bilhões em diesel da Rússia desde 2022, tornando-se dependentes do combustível. O Brasil nunca aderiu às sanções ocidentais e agora teme novas tarifas dos Estados Unidos, que já impuseram medidas contra outros países importadores.
O tema preocupa governo e empresários, pois tarifas americanas podem afetar a economia e pressionar os preços dos combustíveis. O risco aumentou após os EUA anunciarem novas ofensivas contra compradores de petróleo russo, mirando inclusive o Brasil.
Dependência do diesel russo e riscos para o Brasil
O Brasil tornou-se dependente do diesel russo após a invasão da Ucrânia, com importações saltando de US$ 16,9 milhões em 2021 para US$ 95 milhões em 2022 e atingindo US$ 4,5 bilhões no ano seguinte. Atualmente, a Rússia responde por cerca de 60% do diesel importado pelo país.
Essa dependência decorre da falta de capacidade de refino nacional: o Brasil só produz 70% do diesel que consome. Antes da guerra, os EUA eram o principal fornecedor. Com as sanções ocidentais, a Rússia buscou novos mercados, oferecendo preços mais baixos, e o Brasil aproveitou a oportunidade.
O governo de Jair Bolsonaro abriu caminho para as importações russas, buscando aliviar a alta nos preços dos combustíveis em meio à disputa eleitoral. Bolsonaro chegou a negociar diretamente com Vladimir Putin e estimulou empresas a buscar fornecedores na Rússia. O fluxo aumentou ainda mais sob Lula, que também mantém proximidade com Putin e reforçou o comércio entre os países.
Hoje, grandes empresas como Vibra, Refit, Ipiranga, Blueway Trading (Raízen) e Nimofast lideram as importações, respondendo por 58% do volume vindo da Rússia entre janeiro e junho deste ano. Parte dessas empresas possui ações negociadas em bolsas internacionais e sócios estrangeiros, aumentando a exposição a riscos regulatórios.
Preocupações com sanções e impactos econômicos
O governo brasileiro acompanha com preocupação projetos no Congresso dos EUA que podem impor tarifas de até 500% a países que compram petróleo russo. Empresários do setor temem rupturas no abastecimento e aumento dos preços dos combustíveis caso sanções sejam aplicadas.
Anthony Pereira, da Universidade Internacional da Flórida, avalia que o cenário é imprevisível, especialmente com a possibilidade de Donald Trump voltar ao poder. “O Brasil precisa estar preparado para isso e encontrar formas de mitigar esse dano caso isso aconteça”, afirma.
Isaac Levi, do CREA, acredita que países como Brasil e Turquia podem ser os próximos alvos das tarifas americanas, após medidas recentes contra a Índia. O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, também alertou que países como o Brasil podem ser atingidos duramente.
Empresas brasileiras, como Vibra e Raízen, evitam comentar publicamente suas operações com fornecedores russos, enquanto outras, como Ipiranga e Refit, afirmam seguir as legislações internacionais e monitorar riscos. Fundos estrangeiros acionistas, como BlackRock e Canada Pension Plan, também não se pronunciam sobre o tema.
O debate sobre a ética de importar combustível russo permanece, com executivos do setor destacando o risco de desabastecimento e impacto nas camadas mais vulneráveis caso o Brasil interrompa as compras.