Os primeiros data centers de inteligência artificial no Brasil prometem consumir energia e água em escala comparável a cidades inteiras. Projetos estão previstos para Rio de Janeiro, Eldorado do Sul, Maringá, Uberlândia e Caucaia, com apoio de governos locais e federal. O impacto ambiental e a necessidade de refrigeração eficiente preocupam especialistas.
Expansão dos data centers de IA
Espaços que se assemelham a cidades, com uso intensivo de água subterrânea e energia suficiente para abastecer milhões de casas, estão nos planos dos primeiros data centers de IA do país. Ao menos quatro projetos foram anunciados: no Rio de Janeiro (RJ), Eldorado do Sul (RS), Maringá (PR) e Uberlândia (MG). Empresas como Elea Data Centers, Scala Data Centers e RT-One lideram iniciativas, enquanto big techs são vistas como potenciais clientes.
O Brasil já conta com 188 data centers de nuvem, ocupando a 12ª posição mundial, segundo o Data Center Map. Os novos projetos focados em IA, porém, exigem sistemas de refrigeração mais avançados, com destaque para o resfriamento líquido, devido ao alto aquecimento dos servidores utilizados para treinar modelos como o ChatGPT.
Consumo energético e ambiental
O complexo Rio AI City, da Elea, no Rio, poderá atingir 1.500 megawatts, equivalente ao consumo diário de 6 milhões de casas. O Scala AI City, em Eldorado do Sul, pode chegar a 1.800 megawatts, comparável a 7,2 milhões de residências. Especialistas como Eduardo Fagundes ressaltam que o uso real pode ser menor, pois o consumo depende da operação dos servidores e do redirecionamento global da carga computacional.
Além disso, a refrigeração é um desafio ambiental. Enquanto Elea e Scala optam por sistemas fechados com óleo, a RT-One planeja usar água do Aquífero Guarani em Maringá, bombeando-a para resfriamento sem contaminação, segundo Fernando Palamone.
Apoio governamental e desafios regulatórios
Prefeituras e governos estaduais têm incentivado os projetos, como a criação de polo tecnológico em Eldorado do Sul e a busca por área de livre comércio em Maringá. O governo federal admite usar água de reservatórios de hidrelétricas para resfriamento e destaca a matriz energética limpa como diferencial competitivo.
Empresas como Casa dos Ventos, responsável pelo futuro data center em Caucaia (CE), projetam investimentos acima de R$ 50 bilhões e início das operações em 2027, com refrigeração em circuito fechado para reduzir o consumo de água. Big techs como ByteDance, Meta, Google, AWS e Microsoft também planejam ou já operam estruturas robustas no país, mas nem todas são voltadas exclusivamente para IA.
Preocupações ambientais e políticas públicas
Especialistas como Shaolei Ren e Elaine Santos alertam para a falta de transparência sobre o impacto ambiental dos data centers de IA, especialmente no consumo de água e energia. Estudos apontam que o treinamento de modelos pode evaporar centenas de milhares de litros de água. O Ministério do Meio Ambiente exige licenciamento ambiental e autorização para uso de água, enquanto o Ministério de Minas e Energia aprovou 21 dos 57 pedidos de conexão à rede nacional de energia até julho de 2025. O governo federal prepara uma Nova Política de Data Centers para atrair investimentos e regular o setor.