Jornalistas da AFP na Faixa de Gaza denunciam grave escassez de alimentos, exaustão física e mental e risco de vida durante a cobertura da guerra entre Israel e Hamas. Em nota publicada nesta terça-feira (22), a agência pediu a Israel que permita a retirada de seus profissionais e familiares do território palestino, onde o acesso é controlado pelos militares israelenses.
Segundo relatos, a fome, a falta de água potável e a violência dificultam o trabalho e ameaçam a sobrevivência dos jornalistas, que afirmam estar “sem forças” para continuar.
Escassez de alimentos e riscos crescentes
Os profissionais da AFP em Gaza, incluindo redatores, fotógrafos e cinegrafistas palestinos, relatam fome extrema e falta de água potável desde o início da guerra em 7 de outubro de 2023. A exaustão física e mental obriga muitos a reduzir a cobertura dos conflitos. Bashar Taleb, fotógrafo premiado, conta que precisou interromper o trabalho diversas vezes para buscar comida para a família e se sente “completamente abatido”. Omar al Qattaa, também fotógrafo e indicado ao Pulitzer, relata exaustão e dor, agravadas pela falta de medicamentos básicos. Khadr al Zanoun perdeu 30 quilos desde o início da guerra e relata desmaios e fadiga extrema, enquanto Eyad Baba, deslocado para Deir al-Balah, enfrenta preços abusivos por abrigo e alimentos para proteger a família.
Em junho, a ONU denunciou o uso da fome como arma de guerra por parte de Israel, classificando a prática como crime de guerra. Israel, por sua vez, acusa o Hamas de desviar e revender ajuda humanitária e de atacar civis que aguardam por alimentos. Testemunhas e a Defesa Civil local acusam forças israelenses de atirar contra civis nas filas de ajuda, e a ONU afirma que mais de 1.000 palestinos morreram tentando obter comida desde o fim de maio.
Impacto na saúde e no trabalho
Os jornalistas relatam que a fome é mais forte do que o medo dos bombardeios. “A fome impede de pensar”, afirma Eyad Baba. O diretor do hospital Al Shifa, Mohammed Abu Salmiya, alertou para níveis alarmantes de mortalidade por desnutrição, com 21 crianças mortas em três dias. A crise de dinheiro vivo também agrava a situação, com taxas bancárias de até 45% e preços de farinha entre 100 e 150 shekels (166 a 249 reais) o quilo, inviabilizando a compra diária de alimentos.
Consequências para os profissionais e o jornalismo
Segundo a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), mais de 200 jornalistas morreram em Gaza desde outubro de 2023. O cinegrafista Youssef Hassouna relata o impacto devastador da perda de colegas, amigos e familiares, mas afirma que continua a registrar imagens para documentar vidas perdidas sob os escombros. Zuheir Abu Atileh, ex-colaborador da AFP, descreve a situação como “catastrófica” e diz: “Prefiro a morte a esta vida. Não nos restam forças, estamos esgotados, estamos desmoronando. Basta.”
A pressão psicológica e física sobre os jornalistas é intensificada pela escassez de recursos, violência e insegurança. Além do risco à vida, a crise humanitária dificulta o acesso a insumos básicos, prejudicando o trabalho de informar o mundo sobre a situação em Gaza. A AFP reforça o pedido para que Israel permita a saída segura de seus profissionais e familiares do território.