A disputa global por terras raras e minerais estratégicos ganhou novo capítulo após o presidente americano Donald Trump ampliar o interesse dos EUA por reservas brasileiras. O tema se soma às tensões comerciais entre os países, acirradas pela expectativa de tarifas americanas de 50% sobre exportações do Brasil a partir de 1° de agosto.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a soberania mineral do país, enquanto especialistas apontam desafios e alternativas para o aproveitamento desses recursos, fundamentais para tecnologia, energia e defesa.
Corrida internacional por minerais essenciais
A busca por lítio, nióbio, cobre, manganês e terras raras está no centro de uma intensa disputa geopolítica no século 21, impulsionada pela demanda de indústrias como carros elétricos, painéis solares, equipamentos militares e smartphones. Segundo relatório da Unctad, a demanda por esses minérios pode crescer 1,5 mil por cento até 2050, superando a capacidade produtiva atual.
As terras raras — grupo de 17 elementos presentes em celulares, turbinas eólicas, veículos elétricos e mísseis supersônicos — são cruciais por suas propriedades magnéticas e de condutividade, permitindo a miniaturização de eletrônicos e veículos mais leves e resistentes, conforme explicou a geógrafa Julie Klinger à BBC Reel em março de 2025.
O interesse militar também é crescente: a Otan listou 12 minerais críticos, incluindo terras raras, como vitais para sua vantagem tecnológica e operacional. Os EUA, sob Trump, assinaram decreto para ampliar a produção interna desses minérios e buscaram acordos em países como Groenlândia, Ucrânia, Rússia, República Democrática do Congo e Brasil. A China lidera o setor, concentrando 60% da produção global e 90% do refinamento, segundo a Agência Internacional de Energia.
Brasil no xadrez mineral
O Brasil detém até 23% das reservas conhecidas de terras raras, mas responde por menos de 1% da produção mundial, pois grande parte das jazidas está em áreas sensíveis como a Amazônia. O país também é líder mundial em nióbio, respondendo por 92% da produção e sendo o principal fornecedor dos EUA, que importaram 66% do seu nióbio do Brasil entre 2020 e 2023, segundo o USGS.
O presidente Lula, em evento em Minas Novas (MG), reforçou a proteção dos recursos minerais nacionais e respondeu ao interesse manifestado por Gabriel Escobar, da embaixada americana, em reunião com o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). O presidente do Ibram, Raul Jungmann, afirmou que negociações devem ser conduzidas pelo governo brasileiro.
Além da extração tradicional, alternativas como mineração urbana e reciclagem de lixo eletrônico são apontadas por especialistas como formas de suprir a demanda sem ampliar o impacto ambiental.
Desafios, riscos e repercussão internacional
A disputa por minerais estratégicos tende a se intensificar, dentro e fora das fronteiras nacionais. Dados da ONU indicam que 40% dos conflitos intraestatais nas últimas décadas envolveram recursos naturais, incluindo minérios.
Rússia e China também avançam sobre reservas globais: Moscou planeja reduzir em 15% suas importações de terras raras até 2030 e investe em projetos na África, enquanto Pequim amplia sua presença em mineração e infraestrutura no continente africano. Analistas veem nessas ações traços de neocolonialismo, explorando países frágeis sem promover desenvolvimento local.
Relatório da Unctad alerta que a dependência da exportação de commodities pode perpetuar desigualdades e vulnerabilidades, especialmente em regiões como África Subsaariana, América do Sul, Pacífico e Oriente Médio. O documento ressalta que o mundo precisará investir até US$ 450 bilhões em minérios críticos até 2030 para atender à demanda crescente.
Especialistas defendem a otimização de práticas de mineração e o aproveitamento de resíduos industriais e lixo eletrônico como alternativas sustentáveis para garantir o suprimento desses recursos estratégicos.