O Brasil, detentor de cerca de 92% das reservas mundiais de nióbio, discute estratégias para negociar com os Estados Unidos diante da iminente tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, prevista para 1º de agosto.
O tema ganhou destaque após sugestões de usar o nióbio como instrumento de barganha, mas especialistas alertam para riscos e defendem negociações cautelosas.
O papel estratégico do nióbio
No cenário global, o nióbio tornou-se peça-chave na geopolítica da defesa, segundo relatório do Center for Strategic and International Studies (CSIS). O metal é fundamental na fabricação de armas hipersônicas, que atingem até cinco vezes a velocidade do som e exigem materiais resistentes ao calor extremo.
Henry Ziemer, do CSIS, destaca que não há bons substitutos para o nióbio, combinando leveza e alta resistência térmica. Ele sugere que minerais brasileiros, como nióbio, cobre, lítio e terras raras, deveriam estar no centro de eventuais acordos com os EUA, mas alerta que ameaças de retenção podem gerar complicações diplomáticas.
O professor Hugo Sandim, da USP, considera “equivocada” a ideia de usar o nióbio como retaliação, pois poderia ser mal interpretada e escalar tensões. Julio Nery, do Ibram, defende a busca por negociação, temendo não só o impacto da tarifa, mas possíveis retaliações americanas que afetariam a importação de máquinas essenciais para a mineração brasileira.
O governo Lula tenta negociar a suspensão da tarifa antes de sua vigência, enquanto setores como o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) relatam interesse dos EUA em minerais estratégicos brasileiros, incluindo nióbio.
Mercado e aplicações do nióbio
Apesar de sua importância estratégica, os EUA são apenas o quarto maior destino do nióbio brasileiro, atrás de China, Holanda e Coreia do Sul. Cerca de 44% das exportações vão para a China, devido à forte demanda da indústria siderúrgica asiática.
O nióbio é utilizado principalmente na fabricação de aços para automóveis e construção civil, proporcionando estruturas mais leves e resistentes. Apenas 200 gramas por tonelada de aço já aumentam significativamente sua resistência, segundo Sandim.
O Brasil exporta ferronióbio, óxido de nióbio e nióbio metálico, usados em setores que vão de baterias de carros elétricos a equipamentos médicos e aceleradores de partículas.
Dependência americana e riscos
Os EUA dependem quase totalmente de importações para suprir sua demanda de nióbio, sendo o Brasil responsável por 66% do ferronióbio e 83% do óxido de nióbio importados entre 2020 e 2023. O metal é considerado o segundo mineral mais crítico para os EUA, segundo o Serviço Geológico Americano (USGS), devido à concentração das jazidas brasileiras.
Além das aplicações industriais, o nióbio é vital para a indústria aeroespacial e defesa, sendo usado em turbinas de aviões, foguetes e armas hipersônicas. Substituí-lo nesses setores é difícil, tornando-o um recurso quase insubstituível.
Empresas chinesas também têm participação relevante na produção brasileira, como a CMOC Brasil e a CBMM, evidenciando a complexidade geopolítica do setor.