O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou uma tarifa de 50% sobre armas e munições brasileiras a partir de 1º de agosto, medida que pode inviabilizar a operação da Taurus no Brasil. A empresa cogita transferir a produção para os EUA, o que pode causar até 15 mil demissões no Rio Grande do Sul. O setor, que depende fortemente do mercado americano, enfrenta incertezas e críticas à condução do governo brasileiro nas negociações.
Impacto imediato das tarifas sobre a Taurus
A indústria de armas e munições, beneficiada durante o governo de Jair Bolsonaro, está entre as mais afetadas pela tarifa de 50% imposta por Trump ao Brasil. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, 61% das exportações brasileiras do setor em 2024 tiveram os EUA como destino, com 53% dessas vendas partindo do Rio Grande do Sul. O anúncio da tarifa foi feito em 9 de julho, com início previsto para 1º de agosto.
O CEO da Taurus, Salesio Nuhs, afirmou que a empresa pode transferir toda a operação para os EUA, o que resultaria na perda de até 15 mil empregos, sendo 3 mil diretos em São Leopoldo (RS). “Não existe margem que possa cobrir uma taxação de 50%. Significa inviabilidade total”, declarou Nuhs.
O executivo criticou a falta de habilidade do governo brasileiro em negociar com os EUA, destacando a insegurança jurídica para empresas e trabalhadores. Em carta ao presidente americano, 11 parlamentares brasileiros acusaram Trump de usar a economia para interferir em favor de Bolsonaro e alertaram para uma possível aproximação do Brasil com a China.
Dependência do mercado americano
Em 2024, 87% das armas da Taurus foram vendidas nos EUA, representando 83% da receita líquida da empresa. Apesar de possuir fábrica em Bainbridge (Geórgia), apenas 24% da produção ocorre nos EUA; o restante depende de peças importadas do Brasil, que também seriam afetadas pela tarifa.
Analistas como Fabiano Vaz, da Nord Investimentos, e Marco Saravalle, da MSX Invest, apontam que redirecionar as vendas para outros mercados é improvável, dada a competitividade e a escala do mercado americano. A saída da Taurus do Brasil poderia causar efeitos catastróficos para a economia de São Leopoldo, onde exportações ligadas ao setor representam 4,7% do PIB municipal.
Ceticismo sobre transferência da produção
Apesar das ameaças de transferência, analistas duvidam da viabilidade dessa medida. O principal diferencial da Taurus nos EUA é o preço competitivo, possível devido à produção no Brasil. Transferir a produção elevaria custos trabalhistas e reduziria margens, atualmente superiores às das concorrentes americanas, como S&W e Ruger.
O pesquisador Mateus Tobias Vieira, da Unesp, ressalta que a indústria nacional consolidou um parque produtivo robusto, difícil de replicar nos EUA em curto prazo. Além disso, o mercado doméstico brasileiro, embora restrito, ainda é relevante.
Queda nas vendas e desafios regulatórios
As vendas da Taurus dobraram entre 2018 e 2021, impulsionadas por alta demanda nos EUA e flexibilização de regras no Brasil durante o governo Bolsonaro. Porém, desde 2021, as vendas voltaram ao patamar de 1,2 milhão de unidades anuais, devido à normalização do mercado americano e novas regulações no Brasil sob o governo Lula.
Vieira avalia que a indústria enfrenta dupla restrição: controle interno mais rígido e dificuldades para exportar, agravadas por medidas do governo Trump e ações da família Bolsonaro. Segundo ele, o próprio governo Bolsonaro, apesar de ser visto como aliado do setor, contribuiu para o cenário adverso ao romper com políticas de proteção e não criar um arcabouço jurídico estável.