Mais de 100 agências humanitárias denunciaram “fome generalizada” em Gaza, em comunicado conjunto divulgado nesta semana. As organizações, incluindo Save the Children, Oxfam e Médicos sem Fronteiras, responsabilizam Israel por restringir o acesso à ajuda. O governo israelense, por sua vez, atribui a crise ao Hamas e nega responsabilidade direta pela fome.
Crise humanitária e relatos do cotidiano
O comunicado das organizações humanitárias destaca o impacto devastador da fome sobre a população de Gaza, especialmente crianças. “Enquanto a fome generalizada se espalha por Gaza, os corpos de nossos colegas e daqueles a quem servimos estão sendo consumidos”, afirma o texto. Segundo relatos, mães imploram por leite em fórmula nos hospitais, e crianças expressam desejo de ir para o céu em busca de comida.
A ONU informou na terça-feira (22) que mais de 1.000 palestinos morreram tentando obter ajuda alimentar desde o início das operações da Fundação Humanitária de Gaza, entidade apoiada por Estados Unidos e Israel, que substituiu a resposta coordenada pela ONU. Israel enfrenta pressão internacional diante da grave escassez de alimentos e produtos essenciais para os mais de dois milhões de habitantes do território, após 21 meses de ofensiva.
Restrição ao acesso e críticas à atuação israelense
O comunicado denuncia que as distribuições de ajuda em Gaza têm média de apenas 28 caminhões por dia, enquanto a ONU estima ser necessário ao menos 600 caminhões diários. As agências acusam Israel de negar acesso a toneladas de suprimentos e de não cumprir promessas de ampliação da ajuda. O órgão militar israelense Cogat afirma atuar conforme o direito internacional e garantir que a ajuda não chegue ao Hamas.
Em Tel Aviv, centenas protestaram levando sacolas simbólicas de alimentos ao Ministério da Defesa para exigir cessar-fogo. O documento das agências também denuncia “cerco total” e esgotamento dos suprimentos, além de armazéns bloqueados por Israel. “O sistema humanitário liderado pela ONU não falhou, mas foi impedido de funcionar”, afirma a declaração.
Mortes por desnutrição e testemunhos locais
O Ministério da Saúde de Gaza informou na terça-feira que 33 pessoas, incluindo 12 crianças, morreram por desnutrição em 48 horas, totalizando 101 mortes por esse motivo desde o início da crise. A ONU divulgou número ainda maior de mortes ligadas à busca por ajuda alimentar. Segundo a organização, 87,8% do território está sob ordens de evacuação ou em zonas militarizadas, confinando 2,1 milhões de habitantes em 46 km².
Um médico local relatou à Oxfam e à BBC Mundo o drama de não encontrar leitos hospitalares ou leite em fórmula para bebês. “Desabamos de cansaço e tentamos esquecer a fome. Mas nunca vou esquecer das lágrimas das mães na porta do hospital implorando por leite em fórmula para seus bebês”, afirmou.
Posição oficial de Israel e acusações ao Hamas
O porta-voz israelense David Mencer negou que Israel cause fome em Gaza, atribuindo a escassez ao Hamas. Segundo ele, entre 19 de julho e a última terça-feira, mais de 4.400 caminhões com alimentos e suprimentos entraram em Gaza, e a Fundação Humanitária de Gaza teria distribuído 87 milhões de refeições. Mencer afirmou que o Hamas impede a distribuição de comida e saqueia caminhões de ajuda, além de culpar a ONU por gargalos logísticos.
Desde o início do conflito, após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, Israel relata 1.200 mortos e 251 reféns, enquanto o Ministério da Saúde de Gaza contabiliza mais de 59 mil mortos, incluindo 17 mil crianças, e 142 mil feridos.