Deputados do Chega expuseram nomes de crianças estrangeiras de uma pré-escola em Lisboa, em 3 de julho, como parte de campanha anti-imigração. A iniciativa, liderada por Rita Matias, gerou forte reação de associações de pais e acirrou o debate sobre vagas escolares e políticas migratórias em Portugal.
O episódio ocorre em meio ao aumento do número de imigrantes no país e à discussão de mudanças legislativas que endurecem a permanência de estrangeiros.
Repercussão entre pais e especialistas
Associações de pais manifestaram indignação em carta aberta, criticando a exposição dos nomes por deputados do Chega. O texto alerta para o risco de alimentar ressentimento social e atacar injustamente famílias e crianças que seguiram todos os requisitos legais para matrícula.
As associações reconhecem a carência de vagas nas escolas públicas, mas negam privilégios a estrangeiros. “É totalmente mentira que os cidadãos estrangeiros, as crianças, tenham prioridade sobre os portugueses. A lei é igual para todas as nacionalidades, para todas as crianças”, afirma João Carvalho, sociólogo da Universidade de Lisboa. Ele ressalta que o aumento da imigração trouxe mais diversidade às escolas, e que esse cenário tem sido explorado politicamente para fomentar hostilidade e rivalidade.
Mudanças demográficas e avanço da direita
Dados da Agência para Integração, Migrações e Asilo (Aima) mostram que, entre 2015 e 2025, o número de imigrantes em Portugal saltou de 397,7 mil para 1,5 milhão, representando 14% da população. Brasileiros lideram entre os estrangeiros, seguidos por asiáticos de países como Índia, China, Nepal e Bangladesh.
O cientista político Antônio Costa Pinto observa que o discurso anti-imigração da ultradireita portuguesa se volta especialmente contra asiáticos e afro-portugueses, rompendo com a tradição lusotropicalista e adotando uma postura mais abertamente racista. Ele destaca que o envelhecimento acelerado da população e a baixa fecundidade tornam a mão de obra imigrante essencial para setores como turismo, indústria e agroexportação.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), 24% dos portugueses tinham 65 anos ou mais em 2022, e o crescimento populacional só ocorreu devido ao saldo migratório positivo.
Impacto político e mudanças legislativas
A retórica anti-imigração impulsionou o crescimento do Chega, que saltou de uma para 60 cadeiras na Assembleia da República em 2025, tornando-se a terceira maior bancada. Pesquisas do Instituto Universitário de Lisboa indicam que a cobertura midiática sobre imigração aumenta a relevância do tema nas pesquisas de opinião.
O programa do Chega desde 2019 já descrevia a imigração como “risco aos portugueses”. Deputados como Isabel Mendes, do Livre, alertam que o Partido Social Democrata (PSD) pode ceder à pauta da ultradireita ao buscar maioria parlamentar. Mendes critica a polarização promovida pelo Chega, que utiliza crianças para acirrar divisões sociais.
Novas regras para estrangeiros
Em 16 de julho, o Parlamento aprovou mudanças na Lei de Nacionalidade e na Lei de Imigração, restringindo a regularização de estrangeiros e dificultando a solicitação de vistos para familiares. A comunidade brasileira foi diretamente afetada pelas novas regras.
João Carvalho avalia que a falta de ação dos partidos progressistas contribuiu para o avanço do discurso radical. Mendes defende a união do campo democrático para enfrentar o crescimento da ultradireita e proteger a democracia.