Recentemente, circulou entre bolsonaristas a informação de que os EUA poderiam bloquear o GPS no Brasil como parte de possíveis sanções. Especialistas, porém, afirmam que cortar o sinal do sistema de satélites apenas para um país é tecnicamente improvável.
O GPS é fundamental para navegação, telecomunicações e diversas áreas civis e militares. O bloqueio, se possível, teria impactos globais e não apenas locais, segundo engenheiros e cientistas consultados.
Como funciona o GPS e por que é difícil bloqueá-lo
O Global Positioning System foi criado pelo Departamento de Defesa dos EUA no final do século 20, inicialmente para fins militares. O sistema conta com 24 satélites distribuídos em seis planos orbitais, garantindo que ao menos quatro estejam visíveis de qualquer ponto da Terra. Cada satélite transmite sinais de rádio com informações precisas de posição e tempo, permitindo que receptores triangulem sua localização.
Segundo o engenheiro Eduardo Tude, presidente da Teleco, os sinais do GPS são enviados continuamente para todo o planeta, tornando praticamente inviável bloquear o acesso apenas em um país. “Esses satélites ficam transmitindo continuamente um sinal para todo mundo. E o dispositivo que temos em Terra, pega o sinal desses satélites e calcula sua posição. É muito difícil bloquear isso para um país porque o sistema transmite para todo mundo, quem quiser pegar aquele sinal”, explica. Ele compara o funcionamento ao da TV aberta e ressalta que para restringir o acesso seria necessário alterar toda a forma de transmissão, o que afetaria outros países e até os próprios EUA.
Há técnicas conhecidas, como o jamming (bloqueio local do sinal por interferência) e o spoofing (envio de sinais falsos para enganar receptores), mas ambas exigem a presença de equipamentos no território a ser afetado e são classificadas como atos de sabotagem. Exemplo recente ocorreu em maio de 2024, quando a Rússia interferiu em sistemas de navegação por satélite, afetando voos civis e operações militares.
A engenheira mecânica Luísa Santos, especialista em Indústria e Sistemas Aerospaciais, afirma que, apesar de os EUA manterem a capacidade de negar ou degradar o acesso ao GPS em regiões específicas, isso é considerado improvável por questões diplomáticas e de impacto global.
Impactos e alternativas ao GPS
Uma eventual restrição ao GPS afetaria setores como transportes, telecomunicações, energia e finanças, já que muitos sistemas dependem do tempo e posicionamento precisos fornecidos pelos satélites. Em caso de conflito, apenas as forças armadas dos EUA manteriam acesso aos sinais militares criptografados, enquanto civis e adversários poderiam ser bloqueados.
Existem alternativas ao GPS, como os sistemas GLONASS (Rússia), BeiDou (China) e Galileo (União Europeia), além de sistemas regionais como o NavIC (Índia) e o QZSS (Japão). Segundo Luísa Santos, muitos dispositivos modernos já são compatíveis com múltiplas constelações de satélites, e há sistemas terrestres de backup, como o eLoran, para garantir posicionamento e tempo mesmo sem satélites.
A divulgadora científica Ana Apleiade, da USP, reforça que, embora tecnicamente possível, restringir o GPS seria uma decisão delicada e de consequências globais. “O Brasil e o mundo não ficariam completamente no escuro. A maioria dos celulares, aviões, navios e equipamentos modernos já são compatíveis com múltiplas constelações de satélites. Ou seja, o GPS não é mais o único sistema disponível.”