Giovanni Melillo, procurador nacional antimáfia e antiterrorismo da Itália, está no Brasil para negociar um acordo inédito com a Procuradoria Geral da República. O objetivo é criar equipes conjuntas de investigação permanente contra máfias e facções criminosas que atuam nos dois países.
Desde segunda-feira (23), Melillo cumpre agendas em Brasília com autoridades brasileiras, incluindo o procurador-geral Paulo Gonet e o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. A assinatura do acordo, esperada para terça-feira (24), ainda não foi confirmada pela PGR.
Cooperação internacional e combate ao crime
O acordo negociado entre Brasil e Itália representa uma iniciativa inédita de compartilhamento permanente de informações entre promotorias, superando as colaborações pontuais realizadas anteriormente entre as polícias dos dois países. Segundo o g1 e a GloboNews, o objetivo é enfrentar o avanço de organizações criminosas transnacionais, como demonstrado em um mapeamento exclusivo que revela a presença de facções brasileiras em pelo menos quatro continentes, envolvidas em crimes como lavagem de dinheiro.
Na quarta-feira (25), Melillo participa do seminário internacional “Crime Organizado e Mercados Ilícitos no Brasil e na América Latina: Construindo uma Agenda de Ação”, na USP, em São Paulo. O evento reúne especialistas, autoridades do sistema de justiça e lideranças políticas para debater estratégias e legislações voltadas ao enfrentamento das redes criminosas.
Origem das tratativas
As conversas para o acordo começaram no ano passado, quando autoridades italianas convidaram procuradores brasileiros para colaborar em investigações sobre o tráfico internacional de drogas do Primeiro Comando da Capital (PCC) para a Europa. O esquema foi revelado por Vincenzo Pasquino, traficante italiano extraditado para a Itália após ser preso no Brasil, que firmou acordo de delação e está detido em Roma.
O papel de Vincenzo Pasquino
Pasquino, líder da máfia calabresa ‘Ndrangheta, atuava como principal intermediário do tráfico de cocaína da América do Sul para clãs mafiosos italianos. Além do PCC, ele também mantinha contato com a facção Comando Vermelho (CV). No sistema judiciário italiano, Pasquino tornou-se “pentito” – o equivalente brasileiro ao delator premiado. Ele chegou ao Brasil em 2017, inicialmente residindo no Paraná, importante rota de entrada de cocaína, e depois mudou-se para São Paulo, ponto estratégico para exportação da droga.
Em maio de 2021, uma operação conjunta entre Polícia Federal, Interpol e polícia italiana prendeu Pasquino e Rocco Morabito em João Pessoa. A polícia paulista já monitorava Pasquino, que utilizava imóveis no litoral e na capital paulista como bases para encontros com traficantes italianos e albaneses. Segundo o delegado Fernando Santiago, do Denarc, “Vicenzo morou no bairro do Tatuapé. Ele tinha um apartamento e também se utilizava de um apartamento no bairro do Morumbi e dois apartamentos no Guarujá.” Pasquino era acompanhado de seguranças albaneses, que aparecem em imagens de elevadores dos prédios onde residia.
Brasil como rota estratégica
Estudo de uma ONG dedicada ao combate ao crime organizado internacional aponta o papel logístico das facções brasileiras no tráfico internacional, distribuindo cocaína produzida na América do Sul. A pesquisa destaca a participação da Máfia dos Bálcãs no envio da droga para a Europa e o papel estratégico do estado de São Paulo, especialmente devido ao porto de Santos, maior da América do Sul. “Mais da metade da cocaína apreendida no país acontece no porto de Santos. Olhando só pro porto de Santos são várias formas de embarcar a droga para que ela chegue no continente europeu”, afirma Isabela Vianna, socióloga e pesquisadora.