O Wall Street Journal dedicou uma grande reportagem ao Primeiro Comando da Capital (PCC) nesta segunda-feira (20), comparando a facção brasileira às máfias italianas e descrevendo sua estrutura como a de uma multinacional do crime.
Segundo o jornal americano, o grupo reformulou os fluxos globais de cocaína, domina rotas da América do Sul até os portos europeus e avança em direção aos Estados Unidos.
Autoridades norte-americanas já identificaram integrantes da facção nos estados da Flórida, Nova York, Nova Jersey, Connecticut e Tennessee.
Estrutura e alcance do PCC segundo o WSJ
Com 40 mil membros e operações confirmadas em 30 países — em todos os continentes, exceto na Antártida —, o PCC é descrito pelo Wall Street Journal como o maior grupo criminoso das Américas. O diferencial, segundo a publicação, está justamente no modelo organizacional: nenhum controle territorial direto, mas uma hierarquia rígida que torna o desmanche da organização muito mais difícil.
“Os membros do PCC mantêm um perfil discreto e empresarial, buscando fortuna, não fama”, escreveu o jornal. Rituais de ingresso chegam a ser realizados por videoconferência, e novos integrantes se submetem a um código interno de conduta.
Para recrutar e expandir rotas, integrantes se passam por pastores em regiões remotas do Brasil, explorando a chamada teologia da prosperidade. Em 2023, a facção foi acusada de criar ao menos sete igrejas para lavagem de dinheiro no Rio Grande do Norte. O esquema se estende a postos de gasolina, fundos imobiliários, motéis, concessionárias e construtoras.
Além do tráfico de drogas, o grupo atua em mineração de ouro, extração de madeira, tráfico de pessoas, pesca ilegal, caça predatória e escravização de comunidades indígenas. Bruno Manso, especialista no grupo e coautor de A Guerra: A Ascensão do PCC e o Mundo do Crime no Brasil, resumiu ao jornal: “Nenhum integrante está acima das regras em uma facção que valoriza ‘igualdade’ e ‘união’, mas qualquer um pode prosperar desde que permaneça leal.”
Em Massachusetts, o gabinete do procurador federal anunciou no ano passado acusações contra 18 brasileiros com suposta ligação à facção — sinal de que a presença do PCC nos EUA já passou da fase de monitoramento para a de resposta judicial.
Classificação terrorista divide Brasil e EUA
A reportagem do WSJ chega em meio a uma disputa diplomática direta entre Brasília e Washington. Promotores e policiais brasileiros pedem que Donald Trump classifique o PCC como Organização Terrorista Estrangeira — pressão que também vem da família Bolsonaro, que desde março articula diretamente com integrantes do governo Trump a mesma medida.
O governo brasileiro, no entanto, é contrário. O chanceler Mauro Vieira levou pessoalmente a objeção ao secretário de Estado Marco Rubio, argumentando que crime organizado e terrorismo têm naturezas jurídicas distintas — uma linha que o Itamaraty mantém mesmo diante da pressão crescente.
Como resposta alternativa à demanda americana, Brasil e EUA já firmaram uma parceria operacional: a Receita Federal fechou acordo com a agência americana CBP para interceptar remessas ilícitas de armas e drogas, sinalizando que Brasília prefere a cooperação técnica ao enquadramento jurídico-penal que Washington propõe.
O debate deve ganhar força nos próximos meses. A reportagem do Wall Street Journal — um dos jornais de maior influência entre legisladores e executivos americanos — aumenta a pressão pública sobre Washington para agir, ao mesmo tempo em que coloca o Brasil na defensiva sobre como responder a uma organização que o próprio país ainda não conseguiu desmantelar.
