Um estudo recente identificou que couro proveniente de áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia está sendo utilizado por marcas internacionais de bolsas de luxo. A investigação, conduzida por organizações ambientais, destaca a relação direta entre o desmatamento amazônico e a indústria do mercado de luxo, especialmente na Itália.
O relatório também evidencia falhas na rastreabilidade da cadeia produtiva do couro e aponta para a necessidade de maior transparência e fiscalização para evitar a entrada de matéria-prima ilegal no mercado global.
A ligação entre o couro ilegal e o desmatamento
Pesquisadores identificaram que o couro extraído de gado criado em áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia é direcionado à fabricação de bolsas e outros produtos de luxo, principalmente na Itália. A investigação da ONG Earthsight revelou que couro de animais criados em terras indígenas, como a TI Apyterewa, no Pará, abastece curtumes italianos que fornecem para marcas renomadas.
Impactos ambientais e sociais
O uso desse couro ilegal contribui para o avanço do desmatamento, afetando a biodiversidade e as comunidades locais. Paulo Barreto, do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), afirma que o controle de fornecedores indiretos é inexistente ou incompleto, permitindo que gado de áreas ilegais entre no mercado. Barreto destaca: “A falta de sistema público transparente sobre a origem do gado dificulta o controle”.
A União Europeia prepara a entrada em vigor de uma lei antidesmatamento que proibirá a importação de produtos de áreas florestais destruídas. Rafael Pieroni, da Earthsight, espera que a lei seja implementada no prazo, apesar da resistência de setores da indústria.
Rastreabilidade e certificação sob suspeita
O relatório mostra que frigoríficos como a Frigol compraram gado de áreas desmatadas ilegalmente e que parte desse couro foi exportado para a Itália por empresas como a Durlicouros. Entre 2020 e 2023, mais de 17 mil cabeças de gado foram vendidas para a Frigol, gerando cerca de 425 toneladas de couro. No exterior, 25% dessa matéria-prima abasteceu os curtumes Conceria Cristina e Faeda, fornecedores de marcas como Coach, Fendi, Chloé, Hugo Boss, Saint Laurent, Chanel, Balenciaga e Gucci.
O sistema de certificação Leather Working Group (LWG), adotado por empresas brasileiras e italianas, não exige rastreabilidade até as fazendas de origem, o que, segundo os pesquisadores, permite ignorar abusos ambientais e de direitos humanos. White, da Earthsight, argumenta que “os sistemas de certificação são usados como atalho para limpar a cadeia de fornecimento, sem diligência significativa”.
Respostas das empresas
A Frigol afirma monitorar todos os fornecedores indiretos nível 1 e defende rastreabilidade individual dos animais. A Durlicouros diz rastrear fornecedores indiretos e possuir certificação do LWG. Marcas internacionais, como Coach, reconhecem a complexidade do rastreamento no Brasil e afirmam buscar soluções em parceria com ONGs. O Kering Group, dono de Balenciaga, Gucci e Saint Laurent, nega usar couro brasileiro. Hugo Boss afirma que seus produtos não têm relação com as partes citadas na investigação.
O Leather Working Group reconhece que sua certificação avalia apenas o desempenho ambiental nas instalações, não a origem do couro. Fendi, Chloe, Chanel e os curtumes italianos não responderam à investigação.