Os preços do café registram queda em junho, impulsionados pelo avanço da colheita nas principais regiões produtoras do Brasil. O aumento da oferta pressiona o mercado, levando produtores e comerciantes a ajustarem suas estratégias. Especialistas apontam que a tendência pode continuar, mas fatores climáticos e demanda internacional seguem influenciando o cenário.
Impacto da colheita e dinâmica de mercado
O avanço da colheita tem elevado a disponibilidade de café no mercado, resultando em retração dos preços ao longo de junho. O Indicador Cepea/Esalq do robusta tipo 6 no Espírito Santo renovou recorde real desde 2001, com valorização superior a 100% na parcial do ano, reflexo da oferta limitada no Vietnã e Brasil e dos preços elevados do arábica.
Para o arábica, o valor voltou a operar abaixo de R$ 2.200 a saca de 60 kg em São Paulo, marca não vista desde dezembro de 2024. No acumulado parcial de junho, a cotação do arábica recuou 7,2%, enquanto o robusta caiu 8,65% e fechou abaixo de R$ 1.300 a saca no Espírito Santo, menor patamar desde agosto de 2024.
Até a última semana, a colheita do arábica atingia entre 20% e 25% do esperado, e a do robusta se aproximava da metade. A safra do robusta deve superar 20 milhões de sacas, compensando a menor produção do arábica prevista para 2025/26, segundo boletim do Cepea.
Consumo interno e exportações
Segundo Renato Garcia Ribeiro, pesquisador do Cepea, o café consumido no Brasil é um blend de arábica e robusta, sendo dois terços da produção nacional de arábica e um terço de robusta. O Brasil lidera a produção mundial dessas variedades, enquanto o Vietnã é o maior produtor de robusta. Problemas climáticos em ambos os países têm impactado a oferta e elevado os preços.
As exportações brasileiras de arábica e robusta somaram 22 milhões de sacas nos cinco primeiros meses da safra 2024/25, quase metade do total embarcado na temporada anterior, impulsionadas pela baixa oferta global, demanda externa firme e dólar valorizado.
Flutuações históricas e desafios climáticos
Em fevereiro, os preços do arábica atingiram recorde real desde 1996, chegando a R$ 2.769,45 a saca de 60 kg. O movimento foi impulsionado por estoques baixos e preocupações com o clima. Em janeiro, o indicador já havia registrado o maior patamar da série histórica do Cepea, com média de R$ 2.301,60 a saca, aumento de 6,8% em relação a dezembro.
Pesquisadores do Cepea alertam que a safra 2025/26 preocupa devido ao tempo seco e ondas de calor entre agosto e outubro de 2024, prejudicando o desenvolvimento das lavouras. O excesso de calor pode comprometer a qualidade do grão e reduzir a produção, especialmente para o arábica, mais sensível ao clima.
Mercado internacional e ajuste de blends
O preço do robusta historicamente é menor por ser mais usado em blends e cafés solúveis, mas a restrição de oferta e problemas logísticos globais têm elevado seus valores. O aumento do frete e dificuldades no envio para a Europa ampliaram a exportação do robusta brasileiro, que normalmente é consumido internamente.
Para lidar com os preços, a indústria ajusta a proporção de arábica e robusta nos blends, mas há limites para não alterar o padrão de sabor do café. Caso as altas persistam, o repasse ao consumidor final pode ocorrer, dependendo da evolução do cenário climático e da oferta.
O arábica segue como a variedade mais produzida e consumida no Brasil, valorizada pelo sabor, mas vulnerável às condições climáticas adversas. O robusta, por sua vez, ganha espaço diante das restrições de oferta global.