O preço do café ao consumidor subiu 81,6% em 12 meses até junho, enquanto produtores rurais começaram a receber menos pelo produto desde março, após o início da colheita no Brasil.
Especialistas apontam que a diferença entre o valor pago no campo e o preço nas prateleiras pode impactar a sustentabilidade do setor cafeeiro, especialmente para pequenos produtores.
A expectativa é de que a queda de preços no campo chegue ao consumidor de forma lenta e gradual nos próximos meses.
Alta ao consumidor e queda no campo
Nos últimos meses, o preço do café nos supermercados subiu, refletindo alta demanda e custos logísticos. Segundo o IBGE, o café moído foi o segundo item que mais pesou na inflação de junho, atrás apenas da energia elétrica. Em relação a maio, o café subiu 2,86%. No acumulado de 12 meses até junho, o aumento chegou a 81,6%.
Enquanto isso, produtores rurais começaram a sentir queda nos valores pagos pelo produto. A cotação média mensal do café arábica caiu 17% em junho em relação a fevereiro, quando o preço bateu recorde. O início da colheita, em março, e a expectativa de uma safra melhor em países do Sudeste Asiático, como Vietnã e Indonésia, contribuíram para essa baixa.
Analistas explicam que o repasse dos preços do campo até o supermercado costuma demorar. Fernando Maximiliano, da StoneX Brasil, afirma: “Existe um tempo entre colher, secar, beneficiar, torrar, embalar e distribuir o café”. Carlos Cogo, da Cogo Inteligência em Agronegócio, prevê que em 60 a 90 dias pode haver uma transferência de preço mais expressiva ao consumidor, mas sem retorno aos patamares anteriores a 2024.
Impactos e perspectivas
A queda no preço recebido no campo pode afetar a renda dos agricultores, sobretudo dos pequenos, que já enfrentam custos altos com insumos e mão de obra. A tendência é que o preço da saca continue caindo com o avanço da colheita, cujo pico ocorre em junho e julho.
Maximiliano destaca que o aumento da safra de café robusta, estimada em 28% pela Conab, é o principal fator da queda nas cotações. Já o arábica deve ter produção 6,6% menor devido a secas. O consumo interno também caiu por conta do encarecimento do produto.
Por que o preço bateu recorde?
Em 12 de fevereiro, a cotação diária do café arábica chegou a R$ 2.769,45, recorde histórico do Cepea-Esalq/USP. O robusta atingiu R$ 2.102,12 em 23 de janeiro. Maximiliano explica que o Brasil exportou mais em 2024, reduzindo estoques para 2025. “A exportação ultrapassou 50 milhões de sacas, mesmo com produção não tão abundante”, afirma.
Problemas de produção no Vietnã e a guerra no Oriente Médio, com ataques a navios no Mar Vermelho, levaram europeus a comprar mais café brasileiro. A expectativa de uma lei europeia contra exportações de áreas desmatadas, adiada para 2025, também antecipou importações. Além disso, a indústria passou a estocar menos café devido à alta dos preços e à queda dos preços futuros do grão.
Projeções para o consumidor
Economistas preveem que a queda de preços no campo deve chegar ao consumidor de forma lenta, com maior intensidade apenas em 2026, caso não ocorram problemas na safra. “O produto continuará caro, mesmo com início de alívio nos preços”, diz Maximiliano. Para Cogo, só haverá barateamento significativo nas prateleiras em 2026, com expectativa de safra maior.