Um estudo da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) e da Tendências Consultoria, divulgado nesta terça-feira (10), projeta queda do PIB de até 3,7% no primeiro ano após a redução da jornada semanal de 44 para 36 horas no Brasil.
O levantamento foi apresentado em Brasília durante o seminário “Modernização da jornada de trabalho”, promovido pela Coalizão das Frentes Parlamentares do Setor Produtivo, e reúne simulações macroeconômicas e experiências internacionais sobre redução de jornada.
No horizonte de cinco anos, a queda acumulada no PIB poderia atingir 4,9% — mesmo no cenário que considera ganho de produtividade de 2%, tido como otimista pelos pesquisadores.
Modelo econômico e projeções detalhadas
Para estimar os efeitos da mudança, a Tendências Consultoria utilizou um modelo DSGE — metodologia empregada por bancos centrais e pelo FMI para simular cenários macroeconômicos. Os pesquisadores analisaram dois caminhos: um com ganho de produtividade de 2% e outro sem avanço significativo nessa área. Em ambos os casos, os resultados apontaram impacto negativo sobre emprego e atividade econômica no curto prazo.
O estudo ressalta que o cenário otimista é pouco provável, dado que a produtividade do trabalho no Brasil permanece praticamente estagnada há cerca de três décadas. A entidade defende que mudanças nas relações de trabalho devem ocorrer via negociação coletiva e com adaptação às características de cada setor.
1,5 milhão de trabalhadores em risco
O levantamento estima que cerca de 1,5 milhão de trabalhadores formais podem enfrentar risco de demissão ou migração para a informalidade. Segundo a Fiep, reduzir a jornada sem aumento proporcional da produtividade eleva os custos para as empresas, que tendem a cortar contratações ou postos de trabalho.
O relatório aponta ainda o fenômeno da dupla ocupação: com o salário mensal estável e o custo de vida inalterado, parte dos trabalhadores precisaria de dois empregos para manter o mesmo nível de renda.
O economista André Portela, da FGV EESP, apresentou estudo paralelo indicando que a transição de 44 para 36 horas semanais elevaria o custo por hora trabalhada em cerca de 22%. Segundo o pesquisador, as empresas tenderiam a reagir repassando custos aos preços, acelerando automação ou reorganizando turnos de equipe.
O cenário de partida já é desfavorável: o PIB brasileiro cresceu apenas 2,3% em 2025 — o pior resultado desde a pandemia — e analistas projetam desaceleração para 1,8% em 2026, o que torna ainda mais crítico absorver uma queda adicional de até 3,7% projetada pelo modelo da Fiep.
Setores mais vulneráveis e experiências internacionais
A Confederação Nacional do Comércio (CNC) estima que o setor poderia ver sua folha de pagamento crescer cerca de 21%, com parte do custo repassada ao consumidor. O levantamento projeta ainda que cada aumento de 1% no custo do trabalho eleva a informalidade em 0,34%.
No turismo — setor que utiliza amplamente a escala 6×1 — o impacto sobre preços e demanda também seria significativo. No agronegócio, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) alerta que culturas como café, uva e laranja, além da pecuária leiteira, exigem trabalho em períodos específicos e dificilmente se enquadram em jornadas fixas, o que poderia elevar custos e afetar a competitividade internacional do setor.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que reduzir a jornada para 40 horas semanais geraria aumento de custos de até R$ 267 bilhões para empresas brasileiras. A análise internacional do estudo da Fiep, que examinou casos na Alemanha, França, Portugal, Japão, Canadá, Bélgica e Eslovênia, identificou redução de horas extras, aceleração da automação e queda no emprego em tempo integral na maioria dos cenários avaliados.
O estudo foi apresentado em meio à pressão política crescente: o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, já havia ameaçado acionar o regime de urgência constitucional para forçar a votação no Congresso caso o tema não avançasse na velocidade desejada pelo Executivo.
Na mesma semana, o presidente Lula defendeu justamente o modelo que a Fiep recomenda: um acordo tripartite entre governo, empresários e trabalhadores, com regras adaptadas à realidade de cada categoria profissional — o que pode abrir caminho para uma solução negociada em vez de uma mudança legislativa uniforme.