A entrada de Gilberto Kassab como candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado foi anunciada na quarta-feira (1º) em Brasília como o movimento que engajaria o PSD — maior partido do país em prefeitos e vereadores — na corrida presidencial de 2026.
O plano, no entanto, esbarra numa contradição de fundo: nos quatro maiores colégios eleitorais do Brasil, o PSD está rachado entre apoios a Lula, Zema e Flávio Bolsonaro — na contramão da candidatura que seu próprio presidente integra.
SP, MG, RJ e BA: quatro frentes abertas contra a candidatura de Caiado
Com 31,2 milhões de eleitores, São Paulo é o maior colégio eleitoral do país — e o primeiro teste para a estratégia de Kassab. O PSD local fechou apoio à reeleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos), que por sua vez declarou apoio a Flávio Bolsonaro para presidente. Kassab enquadra o cenário: “A cédula do PSD em SP será Ronaldo Caiado presidente, Tarcísio governador. E o Caiado não é o candidato do Tarcísio”, afirmou após o anúncio da chapa.
Em Minas Gerais (16,7 milhões de eleitores), o próprio correligionário Mateus Simões — governador pelo PSD e candidato à reeleição — dá suporte a Romeu Zema (Novo) para a Presidência. Simões foi vice de Zema antes de assumir o Executivo mineiro. A articulação de uma aliança entre Caiado e Zema chegou a ser cogitada, mas não avançou. Kassab defende a candidatura “puro sangue” mesmo sem o aliado mineiro a bordo.
No Rio de Janeiro (13,5 milhões de eleitores), Eduardo Paes repete o movimento de 2022 e apoia Lula para presidente, não Caiado — ainda que seja o candidato oficial do PSD ao governo fluminense. Kassab tentou contornar o atrito: “No comitê do Caiado vai estar lá o nome de Eduardo Paes candidato a governador”, afirmou.
Na Bahia (11,8 milhões de eleitores), o PSD está 100% coligado com o PT. O partido apoia Lula e integra a chapa que tem Jerônimo Rodrigues candidato à reeleição, além de Rui Costa e Jaques Wagner disputando vagas no Senado. O acordo foi costurado pelo senador Otto Alencar (BA), que comanda a legenda no estado.
O anúncio da candidatura conjunta em Brasília revelou o duplo papel de Kassab: além de vice-presidenciável, ele atua como articulador nacional do PSD numa chapa sem aliança formal com outra legenda — o que o partido chama de candidatura “puro sangue”. A lógica é mobilizar a capilaridade municipal do PSD em torno de Caiado, sem depender dos grandes caciques estaduais.
O problema é que são exatamente esses caciques que controlam os maiores colégios eleitorais. Nos quatro estados onde a divisão é mais evidente, os acordos locais foram fechados antes da entrada de Kassab na chapa, e não há sinal de revisão em nenhum deles.
O cenário coloca Caiado numa posição incomum: um dos únicos presidenciáveis com vice definido a menos de 100 dias do primeiro turno, ele enfrenta o desafio de construir votos nos estados onde seu próprio vice-presidenciável não tem palanque. A presença do líder do PSD na Câmara, Antônio Brito (BA), no evento de lançamento — mesmo com a Bahia 100% no campo petista — ilustra a tensão interna do partido.
Para Kassab, a saída passa por separar o apoio eleitoral estadual do posicionamento nacional: “Em todas as visitas, a cédula do PSD será Ronaldo Caiado presidente”, reafirmou — tentando convencer a militância de que é possível dividir o voto sem rachar o partido.
