O Brasil responde por até 83% do mel orgânico importado pelos Estados Unidos, mas isso não impediu que o produto ficasse fora da lista de isenções da nova rodada de tarifas de Donald Trump. A lacuna expõe uma falha de visibilidade que o setor apícola agora tenta corrigir às pressas.
Em 6 de julho, Joelma Lambertucci de Brito vai a Washington para audiência pública no USTR — escritório de comércio americano que propôs as sobretaxas. Importadores americanos de mel e a Associação Brasileira de Exportadores de Mel (Abemel) também estarão lá para defender o produto.
O que o governo americano não sabia
Durante reuniões com o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) e o próprio USTR, Joelma Brito percebeu que a ausência do mel na lista de isenções não foi estratégica — foi ignorância. Um integrante do governo americano chegou a admitir que consumia o produto todos os dias sem saber que era brasileiro.
“Não adianta simplesmente ser o maior fornecedor, você tem que realmente propagar”, afirma a empresária, que há 35 anos atua no setor pela Lambertucci Trade Solution. Para ela, o Brasil falhou em comunicar a relevância do mel ao mercado americano — diferentemente do café e da carne, produtos com lobby consolidado nos EUA.
Piauí pagou o preço mais alto
O impacto das tarifas foi mais pesado no Piauí, maior exportador brasileiro de mel. Em 2024, 85% do mel exportado pelo estado foi destinado ao mercado americano. No ano seguinte, uma sobretaxa de 50% imposta por Trump levou ao cancelamento de centenas de toneladas em contratos e provocou perdas financeiras a mais de 40 mil famílias de apicultores.
A dependência quase total dos EUA transforma cada decisão tarifária de Washington em risco direto de subsistência para esse grupo — e torna a audiência de 6 de julho ainda mais urgente para o setor.
O mel integra uma lista mais ampla de produtos brasileiros sem cobertura nas isenções. Aço semiacabado, sucos industrializados e máquinas de construção civil também aguardam o resultado da audiência de julho para saber seu destino. Veja quais outros setores brasileiros enfrentam taxas sem isenção.
A audiência de 6 de julho concentra mais de uma frente brasileira no USTR. O mel não é o único produto que busca isenção: os pescados também ficaram fora das tarifas e contarão com a maior associação americana do setor defendendo o fim das sobretaxas na mesma data. Leia sobre a defesa dos pescados brasileiros no USTR.
As sobretaxas que ameaçam o mel fazem parte do pacote que o USTR formalizou após concluir que práticas comerciais do Brasil são “irrazoáveis” — processo que passou por consulta pública antes de qualquer sanção definitiva. Entenda como o USTR chegou à tarifa de 25% sobre o Brasil.
“Vamos crer que a gente vai conseguir essa isenção”, diz Joelma Brito. A expectativa do setor é que a combinação de dados robustos de dependência com a presença de importadores americanos — diretamente prejudicados pelo encarecimento do produto — dê peso suficiente ao pedido junto ao USTR.
