O presidente Luiz Inácio Lula da Silva dá início nesta terça-feira (16) à sua participação oficial no G7, em Évian-les-Bains, na França. Convidado pelo anfitrião Emmanuel Macron, o Brasil integra o grupo de países não membros admitidos nas discussões ampliadas do fórum.
A agenda brasileira chega carregada: os Estados Unidos ameaçam aplicar taxação extra de 25% sobre importações do país, e a União Europeia acaba de proibir a entrada de carnes, tripas, peixe e mel brasileiros — veto que começa a valer em setembro.
Sem reunião bilateral confirmada com Donald Trump e com o foco global voltado para conflitos no Irã e na Ucrânia, o desafio de Lula em Évian é garantir que o Brasil não fique à margem do debate.
Trump presente, encontro incerto
A presença de Donald Trump em Évian acendeu expectativas no Planalto, mas não há confirmação de reunião bilateral. Interlocutores afirmam que o governo brasileiro sequer pediu o encontro privado à Casa Branca — os dois líderes podem se cruzar nos corredores, mas uma conversa estruturada não está garantida.
A aposta em Évian reflete uma conclusão do Planalto alcançada semanas antes: depois de meses de negociações técnicas ignoradas por Washington, apenas um encontro direto entre os dois presidentes poderia destravar o impasse da Seção 301 e frear a ameaça de novas tarifas.
A designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos EUA é outro ponto sensível que Lula carrega para Évian. A medida foi anunciada na mesma semana em que o presidente convocou ministros em caráter de emergência para enfrentar a ofensiva americana — e o tema segue sem resolução à vista.
Fontes do Ministério das Relações Exteriores reconhecem que uma cúpula do G7 não é o espaço adequado para discutir temas específicos da relação bilateral com os EUA, como tarifas ou a designação terrorista. Essa nunca foi a expectativa brasileira para Évian.
G7 em crise interna, agenda dominada por guerras
O pano de fundo complica o espaço disponível para o Brasil. Oliver Stuenkel, pesquisador da Universidade Harvard e professor da FGV, descreve o G7 atual como um fórum em “profunda crise”, marcado pela postura hostil dos EUA em relação a aliados históricos como Canadá e Reino Unido, com pouco espaço para consenso.
O acordo de paz entre EUA e Irã — assinatura prevista para sexta-feira (19), com reabertura do estreito de Ormuz bloqueado desde abril — deve dominar as conversas em Évian. Os efeitos da guerra sobre cadeias de suprimentos, combustíveis e fertilizantes concentram o interesse dos líderes. Os europeus, por sua vez, pressionam Washington por mais engajamento na Ucrânia, tema constante desde que Trump suspendeu a ajuda militar a Zelensky no ano passado.
Carnes, IA e minerais críticos: a pauta positiva do Brasil
A reunião mais aguardada desta terça-feira não é com Trump, mas com os representantes da União Europeia. Ursula von der Leyen e António Costa encontram-se com Lula — a pedido dos próprios europeus. A proibição de carnes, tripas, peixe e mel brasileiros deve entrar na pauta, embora analistas considerem improvável uma reversão rápida da medida.
O embaixador Philip Fox-Drummond Gough, do Ministério das Relações Exteriores, antecipou o tom: o Brasil ficou “surpreso” com a forma como o veto foi anunciado. Para Oliver Stuenkel, a proibição é em parte uma reação política ao avanço do acordo Mercosul-UE, que entrou em vigor provisoriamente em maio: “O veto é uma espécie de reação política para abafar essa mobilização.”
Na véspera da participação oficial, Lula já havia firmado compromissos de cooperação em minerais críticos e inteligência artificial com a Suíça — e leva para Évian a intenção de posicionar o Brasil nesse debate estratégico. Na quarta-feira (17), o presidente integra sessão sobre crescimento econômico equilibrado, defende reforma de instituições como OMC e ONU, e participa de almoço sobre IA com representantes da OpenAI, Anthropic e Mistral.
Mesmo sem um bilateral com Trump, analistas veem valor na viagem. “Há outros espaços possíveis de reivindicações e de negociação que extrapolam a relação com os EUA”, avalia Clarissa Forner, da UERJ. Um eventual cruzamento entre as delegações, acrescenta, ainda pode “abrir margem para outras negociações futuras, especialmente no campo tarifário”.
