Grandes veículos de imprensa internacional repercutiram a decisão dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas apontando um elemento em comum: a pressão da família Bolsonaro sobre a Casa Branca.
O The New York Times foi direto na manchete: a medida chegou “após nova pressão dos Bolsonaros”, resultado de “meses de lobby agressivo” dos filhos de Jair Bolsonaro junto à administração Trump.
O anúncio, feito pelo secretário Marco Rubio na quinta-feira (28/5), entra em vigor em 5 de junho — dois dias depois de Flávio Bolsonaro se reunir com Rubio em Washington.
O New York Times alertou que a designação “ameaça trazer tensão novamente às relações entre as duas maiores nações do Hemisfério Ocidental”. A preocupação é também eleitoral: Flávio Bolsonaro disputa a presidência em outubro contra Lula, a quem acusa de ser “leniente com o crime”.
Para além da política, o jornal americano destacou consequências econômicas graves. As facções infiltraram a economia formal — distribuição de gás, imóveis, commodities e criptomoedas —, deixando bancos brasileiros expostos a eventuais sanções de Washington. A designação coloca PCC e CV ao lado de Hamas, Hezbollah e Al-Qaeda em uma lista com 94 grupos, dando aos EUA poderes extras para atingir instituições ligadas às facções.
Financial Times destaca a janela eleitoral
O Financial Times adotou tom mais nuançado: reconheceu que Washington já considerava a medida há pelo menos um ano, mas destacou que o “momento escolhido” para o anúncio favorece Flávio Bolsonaro, candidato de 45 anos identificado com a pauta de lei e ordem.
O governo Lula resistia com dois argumentos: os grupos não têm objetivos ideológicos e a classificação poderia abrir caminho para intervenção militar americana no Brasil.
Apesar de uma reaproximação em curso — evidenciada pela visita de Lula a Washington no início deste mês —, o FT alerta que a medida “pode pôr em risco esse progresso”.
A Doutrina Donroe e o padrão regional
A Al Jazeera enquadrou a decisão dentro de um padrão mais amplo da política Trump: desde seu retorno à Casa Branca, ele designou mais de uma dúzia de gangues latino-americanas como terroristas. Críticos chamam a estratégia de pretexto para expandir a influência militar americana sob a chamada “Doutrina Donroe” — versão trumpista da política expansionista do século 19.
A emissora árabe lembrou ainda que Trump já interveio diretamente na política brasileira: elevou tarifas sobre produtos do Brasil a quase 50% em solidariedade a Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão após ser indiciado por tentativa de subversão da democracia em 2022.
A France24 situou a decisão no contexto geopolítico mais amplo: países com governos de centro-esquerda, como Brasil e México, opõem-se às designações; governos de direita, como Equador e Honduras, as apoiam. Para o canal francês, a medida é “uma afronta clara a Lula”, que havia saído de encontro com Trump em Washington declarando-se “muito satisfeito”.
Dias antes do anúncio, Flávio Bolsonaro havia pedido pessoalmente a Trump na Casa Branca a classificação das facções como terroristas — encontro que o New York Times agora identifica como o gatilho da decisão.
