Gerson Palermo, apontado como um dos chefes do Primeiro Comando da Capital (PCC), foi preso nesta terça-feira (26) em Cotoca, na região de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia — encerrando seis anos como fugitivo.
A operação foi conduzida em conjunto pela Polícia Federal brasileira e pela polícia boliviana especializada em narcotráfico. Mas a crise política que assola o país vizinho já impõe obstáculos à devolução do preso.
A transferência terrestre até Corumbá (MS), prevista para esta terça, foi descartada por risco de bloqueios nas estradas. A extradição deve ocorrer por via aérea na quarta-feira (27).
Palermo permanece na sede da Interpol em Santa Cruz de La Sierra enquanto as forças de segurança negociam a logística do traslado aéreo. A expectativa é que ele seja encaminhado diretamente ao sistema penitenciário federal assim que chegar ao Brasil.
A prisão encerra uma fuga iniciada em abril de 2020, quando Palermo obteve um habeas corpus durante plantão judicial em Mato Grosso do Sul. A decisão, assinada pelo então desembargador Divoncir Maran, autorizou que ele saísse de um presídio de segurança máxima em Campo Grande para cumprir prisão domiciliar. Cerca de cinco horas depois, rompeu a tornozeleira eletrônica e desapareceu.
Condenado a quase 126 anos de prisão, ele constava na lista dos mais procurados do Sistema Único de Segurança Pública. As penas acumulam dois grandes crimes: 66 anos e 9 meses pelo sequestro de um Boeing 737 da extinta Vasp, em agosto de 2000, e mais 59 anos por tráfico e associação ao tráfico, na Operação All In, deflagrada pela PF em março de 2017.
No sequestro, a aeronave partiu do Aeroporto Internacional de Foz do Iguaçu com destino a Curitiba e foi tomada cerca de 20 minutos após a decolagem, sendo forçada a pousar em Porecatu, no norte do Paraná. No local, a quadrilha roubou nove malotes do Banco do Brasil contendo cerca de R$ 5,5 milhões.
Na Operação All In, apurou-se que a cocaína saía da Bolívia de avião até Corumbá (MS) e era redistribuída em caminhões para outros estados. Foram apreendidos 810 quilos de droga em ações simultâneas em seis estados.
A captura reforça um padrão já mapeado por autoridades brasileiras: Santa Cruz de La Sierra funciona como base estratégica do PCC no exterior, abrigando ao menos outros dois foragidos de alto perfil da facção.
A crise política boliviana, que levou o Brasil a enviar ajuda humanitária ao país após pedido do presidente Rodrigo Paz a Lula, é a mesma que inviabilizou o traslado terrestre de Palermo até a fronteira brasileira em Corumbá (MS). Os bloqueios de estradas que paralisam o país há quase um mês foram o fator decisivo para mudar o plano de extradição.
As manifestações são lideradas pela Central Operária Boliviana (COB), organizações camponesas e grupos ligados ao ex-presidente Evo Morales. Os protestos são contra o governo de Paz, conservador cristão de centro-direita, que rejeitou os apelos do movimento por diálogo. As cidades mais afetadas são La Paz e El Alto, onde o desabastecimento de alimentos, combustíveis e medicamentos se agravou ao longo das semanas.
Lula conversou por telefone com Paz na segunda-feira (25) e autorizou o envio de ajuda humanitária — gesto diplomático que ocorreu enquanto, nos bastidores, autoridades dos dois países negociavam os últimos detalhes da operação de entrega do preso mais procurado do Brasil.
