Um dos chefes do Primeiro Comando da Capital (PCC), Gerson Palermo foi preso na Bolívia nesta terça-feira (26) e repatriado ao Brasil em voo da Polícia Federal na quarta (27).
Foragido desde abril de 2020, ele acumula quase 126 anos de condenações por tráfico internacional de drogas, assaltos a bancos e participação no sequestro de um avião comercial.
Capturado em Cotoca, na região de Santa Cruz de La Sierra, Palermo tem como destino Campo Grande, onde deve cumprir pena em penitenciária federal de segurança máxima.
Operação binacional e fuga aérea da crise boliviana
A captura foi resultado de uma cooperação antiga entre a Polícia Federal e a Força Especial de Luta Contra o Narcotráfico (Felcn) da Bolívia. Segundo o superintendente Carlos Henrique Cotta D’Angelo, a troca de informações entre as forças de segurança foi decisiva para localizar Palermo. Após a detenção, ele ficou sob custódia da Interpol em Santa Cruz de La Sierra até a conclusão dos trâmites de expulsão.
O plano inicial previa transferência por via terrestre até Corumbá (MS), na fronteira com a Bolívia. A rota foi descartada em razão dos protestos e bloqueios que paralisam o país vizinho há quase um mês. A alternativa foi um voo direto, considerada pelas autoridades a opção mais segura — os detalhes do transporte foram mantidos em sigilo.
Um histórico de crimes que soma 126 anos
Em agosto de 2000, Palermo participou do sequestro de um Boeing 737 da antiga Vasp que saiu de Foz do Iguaçu com destino a Curitiba. O grupo forçou o pouso em Porecatu (PR) e roubou nove malotes do Banco do Brasil, somando cerca de R$ 5,5 milhões — crime que rendeu a ele 66 anos e 9 meses de prisão.
Em março de 2017, a Polícia Federal deflagrou a Operação All In para desmontar o esquema de tráfico que ele comandava. A cocaína saía da Bolívia de avião até Corumbá e seguia de caminhão para outros estados. A ação envolveu seis estados e apreendeu 810 quilos de droga, resultando em mais 59 anos de prisão para Palermo.
Santa Cruz de La Sierra se tornou o principal esconderijo do PCC fora do Brasil, abrigando ao menos outros dois líderes da facção além de Palermo — incluindo “Mijão”, apontado como o maior chefe ainda em liberdade.
Seis anos de fuga que começaram cinco horas após a soltura
Em abril de 2020, Palermo deixou o presídio de segurança máxima de Campo Grande após conseguir habeas corpus para prisão domiciliar, assinado pelo então desembargador Divoncir Maran. Cerca de cinco horas após ser solto, rompeu a tornozeleira eletrônica e desapareceu — iniciando uma fuga que durou seis anos e o levou até a Bolívia.
A captura não veio de rastreamento convencional: foi o sequestro de sua própria filha, Gabrielly, usada como moeda de pressão por uma dívida do tráfico, que revelou às autoridades o caminho até ele em Santa Cruz de La Sierra.
Com o retorno ao Brasil, há pedido de transferência do sistema estadual para o federal. Uma das unidades de segurança máxima fica justamente em Campo Grande — a mesma cidade de onde Palermo fugiu seis anos atrás.
O Brasil devolve um foragido enquanto ajuda a Bolívia em crise
A operação se deu em meio a uma grave crise política e social boliviana, marcada por protestos, bloqueios de estradas e desabastecimento de alimentos, combustíveis e medicamentos. As manifestações afetam principalmente La Paz e El Alto há quase um mês. Na segunda-feira (25), o presidente Lula (PT) autorizou o envio de ajuda humanitária ao país vizinho — o mesmo que, horas depois, entregava ao Brasil um dos criminosos mais procurados do país.