Uma coalizão bipartidária dos Estados Unidos lançou uma organização sem fins lucrativos com mais de US$ 500 milhões para preparar trabalhadores para a era da inteligência artificial.
Batizada de RAISE US, a iniciativa foi criada por Gina Raimondo, ex-secretária de Comércio do governo Biden, e por Eric Holcomb, ex-governador republicano de Indiana — apostando em estados e grandes empresas como alternativa à omissão federal no tema.
A organização surge enquanto estimativas apontam que até 25 milhões de empregos nos EUA podem ser eliminados pela automação nos próximos cinco anos.
O diagnóstico: metade dos empregos americanos em risco
Uma análise do Boston Consulting Group divulgada em abril estima que cerca de metade dos empregos nos Estados Unidos será transformada pela inteligência artificial nos próximos anos. O Goldman Sachs calculou, em março, que 25% das horas trabalhadas no país poderão ser automatizadas — uma escala que vai muito além de assistentes virtuais ou geradores de imagem, podendo alcançar escritórios, hospitais, escritórios de advocacia e fábricas inteiras operadas por robôs.
O setor industrial já acusa o impacto: desde o início do segundo mandato de Donald Trump, a indústria perdeu 68 mil empregos e o transporte rodoviário eliminou 28,3 mil vagas, segundo o Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA.
A resposta: estados como laboratórios, empresas como parceiras
A RAISE US atuará inicialmente com os governos de Arkansas, Connecticut, Maryland e Utah, desenvolvendo políticas que aproximem escolas e empregadores para acelerar a recolocação de trabalhadores demitidos — preferencialmente em vagas com salários mais altos. A organização também estuda mudanças em impostos corporativos para incentivar empresas a manterem seus funcionários empregados.
Entre as parceiras estão Amazon, Microsoft, Anthropic, OpenAI Foundation e Bank of America, além de UPS, General Motors, Eli Lilly, Mastercard, AMD, Cisco e IBM. O conselho consultivo reúne o ex-presidente da Câmara Paul Ryan, o bilionário Stephen Schwarzman, a líder sindical Liz Shuler e os economistas David Autor, Erik Brynjolfsson e Raj Chetty.
Trump aposta em data centers; especialistas pedem mais
O presidente Donald Trump demonstrou pouca preocupação com o risco de eliminação de empregos pela IA. Questionado se caminhões autônomos poderiam desempregar caminhoneiros, antes de visitar uma fábrica da Mack Trucks na Pensilvânia, respondeu: “No momento, não.” Sua aposta é que a expansão dos data centers e das usinas de energia voltadas à IA gerará crescimento econômico suficiente para compensar as perdas.
Especialistas alertam que o sistema educacional e as políticas trabalhistas foram desenhados para uma economia do século XX e não acompanham a velocidade das mudanças. “O que realmente importa é curiosidade e flexibilidade intelectual”, disse Ming, pesquisadora ouvida pela iniciativa, argumentando que nem escolas nem políticas de trabalho estão desenvolvendo o capital humano necessário para a era da IA.
Raimondo, que será a diretora-executiva da RAISE US, quer usar os estados como laboratórios para testar ideias que possam virar políticas nacionais. “Não tenho muita esperança de que o Congresso tome medidas ousadas sobre esse tema nos próximos anos, e acho que não podemos esperar tanto tempo”, disse.
Anthropic e OpenAI — duas das empresas parceiras da RAISE US — estavam entre as que, semanas atrás, viram seus CEOs recuarem de previsões apocalípticas sobre desemprego em massa causado pela IA, o mesmo cenário que a nova organização agora promete enfrentar com meio bilhão de dólares.
O diagnóstico, porém, não é simples. Um estudo do Federal Reserve de Nova York divulgado em junho concluiu que o trabalho remoto, e não a inteligência artificial, foi o principal responsável pelo aumento do desemprego entre jovens graduados — embora especialistas alertem que a automação em larga escala ainda está por vir.
