O trabalho remoto, e não a inteligência artificial, está por trás do aumento do desemprego entre jovens graduados desde a pandemia. É o que aponta um estudo divulgado nesta segunda-feira (1) pelo Federal Reserve Bank de Nova York.
A pesquisa revela que empresas evitam contratar profissionais sem experiência para vagas remotas — por ser mais difícil treinar e orientar novatos à distância.
Entre graduados de 22 a 27 anos, o desemprego chegou a 5,8% no ano passado, o maior nível fora do período pandêmico desde 2012.
Liderado pela economista Natalia Emanuel, do Fed de Nova York, o estudo comparou profissões exercíveis remotamente — como desenvolvimento de software — com ocupações presenciais, como enfermagem. O resultado foi claro: onde o home office é possível, os jovens ficaram para trás.
Entre graduados com menos de 29 anos, a taxa de desemprego subiu 20% em relação ao período pré-pandemia, chegando a uma média de 3,7% entre 2022 e 2025. Já entre trabalhadores com 29 anos ou mais das mesmas áreas, o índice caiu levemente — ampliando o fosso entre novatos e experientes nas mesmas ocupações.
Em profissões presenciais, essa diferença geracional praticamente não existiu. O mesmo padrão foi observado entre trabalhadores sem diploma universitário, o que reforça a hipótese de que o trabalho remoto, e não a escolaridade, é a variável decisiva.
A IA como bode expiatório
Embora a inteligência artificial concentre boa parte da ansiedade sobre o futuro do trabalho, o estudo é enfático: a piora no mercado para jovens graduados começou antes da popularização de ferramentas como o ChatGPT. Ao cruzar o grau de exposição de cada profissão à IA com os dados de desemprego, os pesquisadores concluíram que a tecnologia teve pouco impacto sobre as taxas juvenis.
A conclusão dialoga com uma virada recente no próprio setor: Jensen Huang (Nvidia), Sam Altman (OpenAI) e Dario Amodei (Anthropic) já haviam recuado de previsões apocalípticas sobre a IA como causadora de demissões em massa — e agora o Fed reforça que o problema tem origem bem mais mundana.
O levantamento também analisou dados internos de uma empresa de tecnologia da Fortune 500 — não identificada — e constatou que, durante o fechamento dos escritórios, a companhia contratava menos trabalhadores inexperientes e mais profissionais experientes, que provavelmente precisavam de menos orientação para desempenhar bem suas funções, segundo o próprio estudo.
O cenário se insere em um mercado marcado por poucas contratações e poucas demissões. Embora as dispensas permaneçam baixas e o desemprego geral seja relativamente estável, quem está fora do mercado tem encontrado cada vez mais dificuldade para recolocação.
A preocupação com os formandos já extrapolou o debate acadêmico: neste semestre, recém-formados chegaram a vaiar referências à IA durante discursos de colação de grau em universidades americanas — sintoma de um mal-estar que mistura incerteza econômica com frustração geracional diante de um mercado que parece ter fechado as portas para os mais novos.
