A Polícia Federal deflagrou na última sexta-feira (15) a Operação Sem Refino, que revelou uma dívida ativa superior a R$ 50 bilhões acumulada pelo grupo Refit com a União e estados — Rio de Janeiro e São Paulo são as principais vítimas.
A refinaria é acusada de operar um sofisticado esquema de sonegação de ICMS na venda de combustíveis, com ramificações que, segundo os investigadores, penetraram profundamente na máquina pública fluminense durante o governo de Cláudio Castro.
A estrutura do esquema no Rio
O esquema liderado pelo empresário Ricardo Magro ganhou força no Rio de Janeiro a partir de 2020, quando Cláudio Castro (PL) assumiu o Palácio Guanabara. De acordo com a Polícia Federal, o grupo utilizou conexões políticas para se infiltrar em múltiplos órgãos estatais. Documentos judiciais descrevem uma cooptação integral do estado: Castro trocou secretários, derrubou interdições federais e mobilizou a Fazenda, a Procuradoria-Geral e o Inea em favor da refinaria.
A investigação aponta ainda tentáculos na Alerj e no Judiciário fluminense. O modelo operacional da Refit se sustentava na sonegação sistemática de ICMS sobre combustíveis — setor de alta liquidez e difícil rastreamento tributário.
Amapá e as conexões com o Centrão
O alcance do esquema não se limitou ao Rio de Janeiro. No Amapá, a PF também investiga uma ramificação com suspeitas de benefícios tributários irregulares e repasses a nomes do Centrão. A PF identificou repasses de R$ 1,3 milhão da Refit ao ex-secretário-executivo da Casa Civil no governo Bolsonaro, expondo como a refinaria cultivou aliados em diferentes esferas de poder ao longo dos anos.
Magro na mira do STF e da Interpol
No mesmo dia em que a operação foi deflagrada, o Supremo Tribunal Federal decretou a prisão preventiva de Ricardo Magro. O empresário vive em Miami há mais de uma década e não retorna ao Brasil oficialmente desde 2018 — o STF solicitou sua inclusão na Difusão Vermelha da Interpol para viabilizar uma possível extradição.
O caso tem potencial para reconfigurar alianças no campo político. A investigação, que começou como um escândalo de alcance regional, revelou conexões que perpassam governos de diferentes partidos e esferas — do Palácio Guanabara ao Executivo federal. Analistas apontam que os desdobramentos judiciais ainda devem movimentar o cenário político nos próximos meses.
A colunista Maria Cristina Fernandes, do Valor Econômico e da GloboNews, analisou no podcast O Assunto como o grupo Refit foi construindo sua rede de proteção política ao longo de décadas — e por que o colapso do esquema pode ter efeitos duradouros sobre a política brasileira.
