O tribunal de apelação de Paris condenou nesta quinta-feira (21) a Airbus e a Air France por homicídio culposo pelo acidente do voo AF447, que matou 228 pessoas em 2009.
Cada empresa receberá a multa máxima de 225 mil euros — cerca de 1,3 milhão de reais. A decisão reverte a absolvição imposta por um tribunal de primeira instância em 2023.
Daniele Lamy, presidente da associação de familiares das vítimas, resumiu o veredicto: “A justiça foi absolutamente feita.”
O voo AF447 desapareceu dos radares em 1º de junho de 2009, a caminho de Paris, com 228 pessoas de 33 nacionalidades a bordo. As caixas-pretas foram recuperadas dois anos depois, após uma extensa busca no fundo do Atlântico.
O que causou o acidente
Em 2012, investigadores do Bureau d’Enquêtes et d’Analyses (BEA) concluíram que a tripulação levou o avião a um estol — quando a aeronave perde sustentação — após reagir incorretamente ao congelamento das sondas Pitot, sensores responsáveis por medir a velocidade do avião.
As sondas congelaram enquanto o Airbus A330-200 voava em grande altitude, em uma área de forte instabilidade climática próxima à Linha do Equador. Muitos consideravam impossível que uma aeronave daquele porte simplesmente desaparecesse em uma rota intercontinental.
As acusações contra cada empresa
O Ministério Público concentrou as acusações em falhas sistêmicas. A Airbus teria subestimado a gravidade dos problemas nas sondas Pitot e demorado a alertar as companhias aéreas sobre os riscos identificados.
A Air France, por sua vez, teria deixado de oferecer treinamento adequado aos pilotos para situações de congelamento das sondas e de informar corretamente as tripulações sobre os perigos envolvidos.
Para a promotoria, as falhas das duas empresas “contribuíram, de forma certa, para que o acidente aéreo acontecesse”. Durante o julgamento, que durou oito semanas, as empresas atribuíram o desastre a decisões equivocadas tomadas pelos pilotos diante da emergência.
Uma maratona jurídica de quase duas décadas
A condenação representa o mais recente capítulo de um processo que se arrasta há 17 anos, envolvendo duas das empresas mais emblemáticas da França e familiares de vítimas em sua maioria francesas, brasileiras e alemãs.
Em 2023, um tribunal de primeira instância absolveu as duas companhias. Os magistrados reconheceram “imprudências” e “negligências”, mas não encontraram “nexo causal seguro” com o desastre. Em novembro de 2025, o Ministério Público mudou de posição e pediu ao tribunal de apelação que condenasse ambas por homicídio culposo — pedido atendido nesta quinta-feira.
As multas foram consideradas simbólicas pelos familiares das vítimas, já que representam apenas uma fração mínima da receita das companhias. Ainda assim, grupos de vítimas afirmaram que a condenação representa um reconhecimento formal do sofrimento acumulado ao longo de todos esses anos.
Advogados franceses já preveem novos recursos ao mais alto tribunal do país, o que pode prolongar o caso por mais alguns anos — mantendo aberta uma ferida que familiares esperavam ver encerrada com este julgamento.
