Economia

Desenrola ignora raiz do endividamento recorde, diz pesquisador

Para geógrafo da Unicamp, programa cria cultura de alívio imediato sem atacar a estrutura que mantém famílias no limite
Campus da Unicamp representando análise sobre Desenrola endividamento crônico Brasil

O geógrafo Kauê Lopes dos Santos, pesquisador da Unicamp e autor do livro Parcelado, reconhece o Desenrola 2.0 como alívio necessário para famílias endividadas — mas avisa que o programa não toca na raiz do problema.

Para o pesquisador, ao resolver o endividamento no curto prazo sem enfrentar a estrutura de crédito que o produz, o programa cria uma “cultura de renegociação” que tende a complexificar o cenário futuro.

O Desenrola 2.0 foi lançado pelo governo Lula na segunda-feira (4) com descontos e condições facilitadas para quem tem renda de até cinco salários mínimos — R$ 8.105 mensais.

Endividamento crônico: estrutura, não exceção

A crítica parte de dados expressivos. Em março, 80,4% das famílias brasileiras estavam endividadas — recorde histórico desde 2010 — e as bets já emergem como novo vetor de aprofundamento da crise nas periferias.

Outro levantamento, da Serasa, registrou 81,7 milhões de inadimplentes em fevereiro — 49,9% da população adulta —, com dívida média de R$ 6.598 por pessoa.

Para Lopes dos Santos, esse cenário não é acidente: é resultado de décadas de construção de uma sociedade cujo consumo é catalisado pelo crédito.

O sistema varejista, articulado ao financeiro, ergueu uma lógica de parcelamento em longas prestações com taxas elevadas — o que o pesquisador chama de endividamento crônico: um ciclo em que parcelar gera comprometimento, que exige mais parcelamento.

“Trata-se de uma população que está sempre no limite, e esse limite vai sendo ocupado cada vez mais por crédito”, resume o pesquisador.

No intervalo entre o Desenrola 1 e o lançamento do atual, mais de 9 milhões de pessoas voltaram ao superendividamento — dado que evidencia, para ele, que a iniciativa atua nos sintomas, não nas causas.

O Desenrola 2.0 foi lançado com o país registrando o maior comprometimento de renda com dívidas desde 2005 e 82,8 milhões de negativados — o cenário estrutural que o programa, sozinho, não tem condições de resolver.

FGTS no programa: alívio ou mais uma captura de renda?

O programa prevê o uso de até 20% do saldo do FGTS para quitar dívidas — ponto que Lopes dos Santos contesta ao enxergar no mecanismo mais uma via de extração de renda do trabalhador pelo sistema financeiro.

“O sujeito na periferia já está pagando as maiores taxas de juros, muitas vezes já terminou de pagar o preço do produto à vista e segue pagando apenas juros. Agora o FGTS seria mais um braço para essa extração”, afirma o pesquisador.

Bets, bloqueio e percepção do governo

Lopes dos Santos avalia positivamente a decisão de bloquear apostas em bets por um ano para quem aderir ao Desenrola — “pelo menos um exercício de conscientização”, diz.

Para ele, as plataformas chegaram “de forma muito irresponsável” a populações vulneráveis, drenando orçamentos já no limite. Classifica de “imoral” a venda inicial das bets como possibilidade de renda extra.

Quanto ao impacto político, o pesquisador prevê efeito positivo na percepção sobre o governo, mas pondera que o eleitor atual não tem a mesma euforia de consumo da era da nova classe C.

“Aqueles bens já não são novidade”, diz Lopes dos Santos. O endividamento, contudo, segue moldando a leitura política do país — independentemente de qualquer programa de renegociação pontual.

escrito com o apoio da inteligência artificial
este texto foi gerado por IA sob curadoria da equipe do Tropiquim.
todos os fatos foram verificados com rigor.
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