Uma semana após a derrota histórica no Senado, o governo Lula tentou reaproximar-se de Davi Alcolumbre. O presidente do Senado recebeu dois ministros em sua residência oficial nesta quarta-feira (6): Múcio Monteiro, da Defesa, e José Guimarães, das Relações Institucionais.
O movimento sinaliza disposição de diálogo — mas com cautela dos dois lados. Lula e Alcolumbre ainda não falam diretamente, e nenhum dos dois quer dar o primeiro passo.
Múcio afirmou à imprensa que foi conversar com Alcolumbre sobre temas do Ministério da Defesa. Questionado sobre o impacto político da rejeição de Messias, foi sucinto: “Acredito na pacificação”, disse o ministro.
Do lado do Planalto, aliados de Lula descartam, por ora, uma ligação ou encontro direto entre o presidente e o presidente do Senado. Já interlocutores de Alcolumbre garantem que ele só retomará o contato com Lula se for procurado — a iniciativa terá que vir do Executivo.
Com esse impasse, a comunicação entre os dois deve seguir por intermediários. Guimarães e o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), são os principais canais nesse processo de reconstrução do diálogo.
A estratégia do Planalto é pragmática: manter o ritmo legislativo para aprovar, antes das eleições, pautas consideradas prioritárias, como o fim da escala 6×1 e a PEC da Segurança Pública. Desde o fim de abril, o rompimento entre Planalto e Senado já colocava em risco exatamente essas pautas — escala 6×1, PEC da Segurança e regime especial para data centers.
O pano de fundo de toda essa movimentação é a derrota mais simbólica do governo Lula no Legislativo: no dia 29 de abril, o Senado Federal rejeitou a indicação de Jorge Messias, advogado-geral da União, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Foi a primeira vez desde 1894 que os senadores recusaram uma indicação presidencial ao STF.
A votação foi secreta. Messias foi derrotado por 42 votos a 34, com uma abstenção — o governo precisava de ao menos 41 dos 81 senadores para garantir a aprovação. Na noite da rejeição, o governo denunciou uma aliança entre bolsonarismo e chantagem política, prometendo nova indicação — episódio que torna os gestos de reaproximação desta semana ainda mais carregados politicamente.
A vaga foi aberta pela saída de Luis Roberto Barroso, e Lula já sinalizou que não pretende deixar a escolha do substituto para o próximo governo. Três semanas antes do voto histórico, Lula ainda apostava num jantar com senadores — articulado por Alcolumbre — como estratégia para garantir a vaga no Supremo, o que revela o quanto o presidente do Senado sempre foi peça central nesse processo.
