A popularização das canetas emagrecedoras e o avanço de terapias com medicamentos de alto custo devem pressionar os reajustes dos planos de saúde empresariais em 2026. A estimativa de especialistas ouvidos pelo setor é de que a inflação médica suba entre 8% e 11% no ano.
Três grandes consultorias convergem na projeção: a Mercer Marsh Benefícios estima reajustes entre 8% e 10%, a Willis Towers Watson (WTW) projeta alta de 11%, e a Aon aponta crescimento de 9,7% nos custos médicos corporativos no Brasil.
GLP-1 concentra atenção das seguradoras
Pesquisa da WTW indica que os gastos com medicamentos estão entre os principais fatores que pressionam os custos de saúde nas Américas — com destaque para os remédios mais modernos voltados à obesidade e ao diabetes. Segundo o levantamento, 67% das seguradoras acreditam que os medicamentos à base de GLP-1 vão elevar os custos médicos nos próximos três anos.
Os planos ainda não são obrigados a cobrir as canetas emagrecedoras. Mas o setor monitora de perto o avanço do reconhecimento da obesidade como doença crônica — enquadramento que pode influenciar decisões judiciais contra operadoras, dependendo de cada caso.
A incerteza regulatória está no centro do impasse: a Anvisa ainda analisa os riscos dessas substâncias por meio de grupos de trabalho criados em abril — o que deixa operadoras sem clareza sobre eventuais obrigações futuras de cobertura.
No Brasil, o debate ganhou força com projetos de lei apresentados no Congresso sobre o uso desses medicamentos no SUS. No plano global, a Organização Mundial da Saúde publicou, no fim de 2025, as primeiras diretrizes sobre o uso de GLP-1 no combate à obesidade, classificando-os como ferramenta potencialmente essencial para “ajudar milhões de pessoas a superar a obesidade e reduzir os danos associados”.
Os especialistas ressaltam que outros fatores também pesam nos reajustes: regulação e judicialização, tecnologias atreladas ao dólar, comportamento dos usuários e fraudes. O superintendente técnico e atuarial da Mercer Marsh, Thomás Ishizuka, destaca ainda a frequência de uso e o custo médio dos atendimentos — a chamada “severidade” no jargão do setor.
Operadoras freiam custos, mas desafio persiste
Apesar da alta projetada, a inflação médica de 2026 deve ser menor que a do ano anterior. Dados da Aon indicam queda de 3,2 pontos percentuais em relação aos 12,9% projetados para 2025 — reflexo de esforços das operadoras para conter desperdícios e fraudes após o salto de despesas no pós-pandemia.
Segundo o diretor executivo da Mercer Marsh Benefícios, Marcelo Borges, as ações se concentraram em duas frentes: ajustes na coparticipação e controle mais rígido sobre reembolsos e rede credenciada. O aumento da coparticipação reduziu o uso desnecessário — como idas ao pronto-socorro sem urgência real e excesso de exames. Já as regras mais duras para reembolso surgiram após a identificação de tentativas de ressarcimento indevido por beneficiários.
A dimensão da demanda reprimida por esses medicamentos fica evidente nos números do contrabando: só no Paraná, as apreensões de canetas emagrecedoras nos três primeiros meses de 2026 já superam em valor todo o ano anterior — sinal de que a pressão sobre o mercado regulado tende a crescer.
Para o diretor de Health & Talent da Aon no Brasil, Fabio Martinez, mesmo com a desaceleração, o setor precisa incentivar o uso mais eficiente dos planos. “A gestão de custos em saúde precisa levar em conta o acesso a tratamentos mais eficazes, mas também mais caros, principalmente com a inclusão frequente de novas tecnologias e medicamentos no rol da ANS”, concluiu.
