A agência de classificação de risco Moody’s rebaixou nesta segunda-feira (27) a nota de crédito da Enel Americas, controladora da distribuidora de energia em São Paulo, citando como principal motivo o processo aberto pela Aneel que pode encerrar antecipadamente a concessão da empresa no estado.
A nota recuou de Baa2 para Baa3 — ainda dentro do chamado grau de investimento, mas já no limite inferior da faixa. A perspectiva negativa indica que novos cortes são possíveis se o cenário piorar, o que faria a companhia perder o selo de segurança para investidores.
Por que a Moody’s rebaixou a Enel?
A decisão da agência americana está diretamente atrelada à movimentação regulatória da Aneel. No início de abril, a diretoria colegiada do órgão aprovou a abertura de um processo de caducidade — mecanismo que permite encerrar uma concessão antes do prazo previsto em contrato.
A justificativa da agência reguladora foi o desempenho considerado insatisfatório da Enel Distribuição São Paulo diante de sucessivos apagões nos últimos anos. O mais recente, em dezembro passado, deixou 4,4 milhões de clientes sem energia — um dos maiores eventos do tipo na história do estado.
A Moody’s também destaca que a Aneel suspendeu a análise da renovação antecipada do contrato, ampliando a incerteza sobre a permanência da Enel no mercado paulista. Sem a renovação garantida e com o processo de caducidade em curso, o risco regulatório passou a pesar diretamente na avaliação financeira da companhia.
A concessão em São Paulo não é um ativo qualquer para a Enel Americas: responde por cerca de 20% de todo o lucro operacional da companhia. Outras concessões no Brasil — no Ceará e no Rio de Janeiro — também carregam incertezas, embora já tenham recebido sinalização técnica favorável à renovação. Juntas, representam cerca de 13% do resultado consolidado do grupo.
Além do risco regulatório, a agência aponta que a companhia terá vencimentos de dívida relevantes nos próximos anos e precisará manter investimentos elevados — estimados em até US$ 3 bilhões por ano, equivalente a cerca de R$ 15 bilhões — para modernizar a rede e reduzir as falhas no fornecimento.
Enel SP entre as piores do país
Os números da Aneel reforçam o diagnóstico da Moody’s. No ranking de avaliação das concessionárias de grande porte divulgado em 2025, a Enel São Paulo registrou a maior queda entre todas as distribuidoras: saiu da 21ª para a 30ª posição — em um universo de 33 empresas com mais de 400 mil clientes.
O índice de Desempenho Global de Continuidade (DGC) da distribuidora piorou de 0,8 em 2024 para 0,9 no ano passado. Indicadores mais altos refletem interrupções mais frequentes e mais longas. O resultado vai na contramão do desempenho geral do setor: em média, os consumidores brasileiros ficaram 9,3 horas sem luz em 2024, redução de 9,2% em relação ao ano anterior.
A Enel SP atende mais de 8 milhões de unidades consumidoras em 24 municípios da Região Metropolitana de São Paulo — uma das maiores bases de clientes do país em distribuição de energia. A companhia foi procurada para comentar o rebaixamento da Moody’s, mas não se manifestou até o fechamento desta reportagem.
