Em cinco anos à frente do Banco Master, Daniel Vorcaro transformou uma instituição de segunda linha em um dos maiores conglomerados financeiros do país. Os ativos saltaram de R$ 3,7 bilhões para R$ 82 bilhões entre 2019 e 2024 — alta de 2.123%.
O crescimento vertiginoso, contudo, foi construído sobre bases fraudulentas: CDBs com juros acima do mercado e carteiras de crédito fictícias simulavam uma solidez que não existia.
A farsa chegou ao fim em novembro de 2025, quando o Banco Central liquidou a instituição e a Polícia Federal prendeu Vorcaro pela primeira vez no âmbito da Operação Compliance Zero.
Quando Vorcaro assumiu o controle do então Banco Máxima, em outubro de 2019, a instituição ocupava a 90ª posição no ranking de ativos entre as financeiras brasileiras. Cinco anos depois, o conglomerado havia escalado para o 23º lugar — à frente do Banco Regional de Brasília (BRB), que era o 39º em 2019 com R$ 16,7 bilhões e fechou 2024 na 29ª posição, com R$ 61,3 bilhões.
O crescimento foi uniforme em todos os indicadores. Os títulos e valores mobiliários (TVMs) saltaram de R$ 792 milhões para R$ 32,1 bilhões — alta de 3.950% —, colocando o Master na 16ª posição nacional nessa categoria. As operações de crédito foram de R$ 768 milhões para R$ 16,8 bilhões (+2.089%), e os depósitos de terceiros passaram de R$ 2,6 bilhões para R$ 59,9 bilhões, equivalentes a 77,5% do passivo total de R$ 77,3 bilhões.
Em termos de resultado, a virada foi igualmente expressiva. O banco encerrou 2018, último ano antes de Vorcaro, com prejuízo de R$ 13,2 milhões. Em 2024, registrou lucro líquido de R$ 567 milhões — o 20º maior do país e mais do dobro do BRB no mesmo período (R$ 227 milhões).
As demonstrações financeiras mostram que o perfil da instituição mudou radicalmente: de um banco com baixo volume operacional para um dos maiores captadores do mercado. Os documentos internos, porém, já apontavam irregularidades antes mesmo do escândalo vir a público. As operações de crédito que ajudaram a inflar os ativos eram, em parte, fictícias: documentos do próprio BRB identificaram, ainda durante a negociação de compra, que contratos cedidos por Vorcaro não tinham averbação verificável nos órgãos pagadores. Quando o banco de Brasília tentou auditar as carteiras adquiridas, o Master respondeu com reuniões canceladas em série e cartas formais ignoradas — comportamento registrado formalmente como ‘constantes remarcações e recusas’.
Em novembro de 2025, a Polícia Federal deflagrou a primeira fase da Operação Compliance Zero com mandados contra a cúpula do banco. A Justiça também determinou o afastamento do presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, suspeito de ter injetado bilhões no Master em operações fraudulentas.
Em janeiro de 2026, nova fase da operação autorizou o bloqueio de R$ 5,7 bilhões em bens e valores, além de 15 mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Vorcaro e familiares — carros de luxo e dinheiro em espécie estavam entre os itens apreendidos.
A fase mais recente, em março de 2026, revelou uma estrutura de coerção batizada de A Turma — uma milícia privada que monitorava e intimidava adversários e jornalistas. Servidores do Banco Central foram alvos por atuar como consultores privados de Vorcaro em troca de propina.
O STF determinou o bloqueio de até R$ 22 bilhões em bens, Vorcaro foi preso novamente e está em negociação de delação premiada. O grupo responderá por gestão temerária, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, e obstrução de justiça.
A dimensão financeira do esquema vai além dos balanços: a Receita Federal rastreou R$ 18,1 bilhões movimentados por Vorcaro em contas próprias ao longo de dez anos, com parte dos recursos direcionada a um fundo suspeito de lavagem ligado ao PCC.
