Saúde

ICIJ revela como a MSD decide quem acessa o Keytruda no mundo

Investigação Cancer Calculus identificou mais de 1.200 pedidos de patente da farmacêutica e reuniu 124 jornalistas de 37 países
Investigação jornalística: barreiras ao acesso Keytruda, imunoterapia e câncer de pulmão no Brasil

Uma investigação internacional revelou como a farmacêutica MSD usa patentes, preços e lobby para controlar o acesso ao Keytruda — imunoterápico aprovado em 19 tipos de câncer que acumula US$ 163 bilhões em receita global desde 2014.

O projeto Cancer Calculus, do ICIJ com 47 veículos e 124 repórteres em 37 países, concluiu que o acesso ao medicamento depende mais de renda e localização geográfica do que de necessidade médica. No Brasil, o remédio custa mais de R$ 20 mil.

O relatório foi publicado na segunda-feira (13/4) e inclui dados de 1.018 pedidos de informação em 27 países, centenas de entrevistas e análises exclusivas de preços e patentes.

A fortaleza de patentes do Keytruda

Jornalistas do ICIJ identificaram pelo menos 1.212 pedidos de patente do Keytruda em 53 jurisdições — 88 no Brasil. As patentes principais expiram em 2028, mas patentes de continuação podem estender o monopólio da MSD até 2042, travando a entrada de genéricos por mais de uma década.

Tahir Amin, fundador da ONG I-MAK, classificou a estratégia como um “esquema multifacetado de abuso de patentes”. Além das 1.212 já registradas, outros 337 pedidos estão pendentes e, se aprovados, ampliariam ainda mais o domínio da empresa. A MSD rejeita as críticas e afirma que os pedidos refletem inovação contínua.

US$ 163 bilhões em receita, preço intocável

Só em 2025, o Keytruda faturou US$ 31,7 bilhões — quase metade da receita total da MSD. Desde o lançamento, a empresa acumulou US$ 163 bilhões em receita global, distribuiu cerca de US$ 75 bilhões em dividendos e recomprou US$ 43 bilhões em ações. O sucesso financeiro não reduziu o preço do medicamento em nenhum mercado relevante.

Os custos anuais de tratamento variam de US$ 80 mil na Alemanha a US$ 208 mil nos EUA — e sobrecarregam orçamentos públicos mesmo em países ricos. No Brasil, as vendas cresceram 265% entre 2020 e 2024, chegando a US$ 753,7 milhões. Um frasco de 100 mg custa cerca de US$ 850 na Indonésia e mais de US$ 6 mil nos EUA.

A disparidade vai além do preço de tabela. Na África do Sul, uma pessoa com renda mediana não consegue pagar nem uma dose por ano. Nos EUA, alguém com renda média compra menos de cinco doses anuais. O acesso, segundo o ICIJ, é determinado pela desigualdade de renda — não pelo preço em si.

A investigação também expôs relações financeiras entre a MSD e prescritores: cerca de US$ 52 milhões pagos a médicos nos EUA entre 2018 e 2024. Um estudo do National Bureau of Economic Research constatou que profissionais que receberam financiamento farmacêutico aumentaram em 4% as prescrições nos 12 meses seguintes. A empresa afirma que essas colaborações visam melhorar o atendimento ao paciente.

Brasil: da fila da Justiça ao Butantan

Com 6,7 mil ações em instâncias estaduais e federais e 4,6 mil pareceres técnicos, o Keytruda é o medicamento mais judicializado do Brasil. A estatística tem rosto: em março, uma paciente com câncer de pulmão estágio IV entrou pela segunda vez na Justiça para acessar o pembrolizumabe — e ainda aguardava decisão enquanto a doença avançava por ossos e linfonodos.

A tendência se repete em toda a América Latina, onde tribunais se tornaram um caminho crucial para o acesso ao tratamento. Em alguns países, pacientes recorreram ao mercado ilegal, arriscando medicamentos falsificados. Outros morreram antes de terem seus casos resolvidos.

A parceria fechada em março entre o governo federal, o Instituto Butantan e a própria MSD para produzir o pembrolizumabe no Brasil é apontada como o principal caminho para reduzir o custo do medicamento no SUS e expandir seu uso além do melanoma — para cânceres de mama, pulmão, esôfago e colo do útero.

No campo científico, pesquisadores questionam se as doses atuais são maiores do que o necessário. A OMS estima que adotar dosagem baseada no peso em pacientes com câncer de pulmão geraria economia de US$ 5 bilhões em 15 anos. Holanda, Canadá e Israel já testam essa abordagem com resultados promissores. A MSD sustenta que suas recomendações seguem evidências clínicas aprovadas por reguladores.

“A inovação médica deve ser vista como um ganho comum para a humanidade ou deve permanecer um ativo comercial que aprofunda a desigualdade global?” A pergunta é do médico turco Nasır Nesanır, da Associação Médica Turca, e resume o dilema central que a investigação do ICIJ deixou sem resposta.

escrito com o apoio da inteligência artificial
este texto foi gerado por IA sob curadoria da equipe do Tropiquim.
todos os fatos foram verificados com rigor.
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