Ciência

Unicamp e Princeton lançam plataforma aberta que calcula a rota mais barata para o Brasil zerar emissões

O NetZero Brasil 2050 reúne oito modelos de simulação e 39 parâmetros setoriais, e a próxima etapa é levar os dados ao nível das prefeituras
Campus da Unicamp e bandeira do Brasil simbolizam a plataforma descarbonização Brasil 2050 para zerar emissões

Pesquisadores da Unicamp e da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, criaram o NetZero Brasil 2050. É uma plataforma pública e de código aberto que simula cenários para o país chegar à neutralidade de carbono gastando o mínimo possível.

A ferramenta foi apresentada em 28 de outubro pela professora Carla Kazue Nakao Cavaliero, da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp, na Fapesp Week Países Baixos. A ideia é dar a gestores, pesquisadores e à sociedade civil uma base técnica para formular a política climática.

Modelos de simulação desse tipo costumam ser vendidos como serviço por consultorias privadas. A equipe da Unicamp quer mudar isso. “O que hoje alguns grupos fazem vendendo serviço de consultoria privada, nós estamos deixando totalmente acessível dentro da política de ciência aberta”, disse Cavaliero em entrevista à Agência Fapesp.

Como funciona a plataforma de descarbonização

O sistema junta oito ferramentas que ligam a oferta e a demanda de energia ao uso da terra e à economia. O usuário mexe em 39 parâmetros dos setores de transporte, indústria, edificações, agropecuária, energia e resíduos, com duas ou três premissas possíveis para cada um.

Do consumo de energia ao uso do solo

O primeiro passo estima a demanda futura de energia com a ferramenta EnergyPathways. Depois, um modelo adaptado ao Brasil com Princeton procura a combinação mais barata para atender essa demanda dentro dos limites de emissão. Ele considera o potencial regional de energia solar, eólica, biomassa e hidrogênio verde.

Uma versão do modelo MagPIE, calibrada para o país com as universidades de Lisboa e de Oxford, distribui o território entre lavouras, pastagens, florestas plantadas e áreas de restauração. Um segundo modelo converte esse mapa em emissões e remoções de carbono.

Também há módulos de transporte, agropecuária e resíduos, além de um modelo de insumo-produto feito pela Unicamp que estima os efeitos da transição sobre empregos e o PIB de cada setor.

Setores que dependem uns dos outros

O cruzamento dos dados mostra que, se um setor da indústria não consegue zerar suas emissões por falta de tecnologia, outro precisa compensar. “Sem controlar o desmatamento, por exemplo, não haverá como chegar à neutralidade em 2050”, afirmou a pesquisadora. Segundo ela, os cenários otimizados permitem calcular quanto o país precisa investir a cada ano para seguir determinada rota.

Próxima etapa: os municípios

Hoje os resultados aparecem por estado, nas 27 unidades da federação, com base no Balanço Energético Nacional e em mapas georreferenciados. A equipe trabalha para chegar à escala municipal. Para isso, está calibrando o modelo Seals, da Universidade de Minnesota, com dados do MapBiomas, com o objetivo de passar de 300 para 30 metros de resolução.

Com isso, prefeituras poderão medir quanto contribuem para as metas estaduais e nacionais. Também poderão comparar mais de 70 cenários já prontos ou criar novos. Segundo Cavaliero, as projeções podem embasar políticas locais de mobilidade elétrica, eficiência energética e conservação.

O tema ganha peso porque, na semana passada, a presidência da COP30 apresentou um mapa do caminho para reduzir a dependência de petróleo, gás e carvão sem metas nem prazos, e deixou a cada país a tarefa de planejar a própria transição. A meta de 2050 também já foi objeto de estudos sobre o papel da Petrobras na transição energética.

Rede internacional

O projeto faz parte de uma rede coordenada por Princeton, que já criou plataformas parecidas para Estados Unidos, Austrália, China, Índia, Coreia do Sul e Polônia. A equipe quer ampliar a parceria com as universidades neerlandesas de Delft, Leiden e Groningen, com foco em hidrogênio e em laboratórios vivos. A própria Unicamp funciona como um deles: tem 2,1 megawatts de energia solar instalados, iluminação 100% LED e ônibus elétricos, o que gera uma economia anual de R$ 15 milhões.