Cultura

Eliana Alves Cruz critica Jabuti por levar 68 anos para premiar mulher negra em Romance

Autora de Meridiana diz que prêmios de escritoras negras não são cota e prepara coleção literária sobre crimes coloniais
Mulher negra com turbante dourado ao lado do selo do Prêmio Jabuti: primeira mulher negra Jabuti romance

A escritora Eliana Alves Cruz afirmou que deveria causar estranheza ter sido a primeira mulher negra a vencer o Prêmio Jabuti na categoria Romance só na 68ª edição. A crítica foi feita em entrevista à Agência Brasil publicada neste domingo (8).

Premiada com Meridiana, romance sobre uma família negra que vive em uma favela e busca ascender socialmente, ela citou Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves como autoras que já poderiam ter recebido o prêmio.

É o segundo Jabuti de Eliana, que venceu em Contos em 2022 com A vestida.

“Foram 68 anos”, diz a autora

Para Eliana, a sociedade brasileira “naturalizou tanto a nossa ausência” que cada prêmio de uma pessoa negra vira algo extraordinário, enquanto outros autores acumulam “estantes de Jabutis”. “Foram 68 anos para uma mulher negra ganhar o prêmio de melhor romance do Brasil. Não é possível!”, disse.

Ela vê no quadro o retrato de uma sociedade que prefere “taxar todo mundo de identitarista” a reconhecer a exclusão. Ao mesmo tempo, disse perceber um esforço de mudança no próprio Jabuti e rejeitou a ideia de concessão: “Acho que meu prêmio e o de outras pessoas não são uma cota. São prêmios justos”.

Meridiana foi premiada na 68ª edição do Jabuti, cerimônia em que Ruy Castro levou o Livro do Ano pela segunda vez seguida. Segundo a autora, cinco ou seis livros que nem chegaram aos dez finalistas também poderiam ter vencido.

O burnout que levou à literatura

Eliana registrou num diário, aos 11 anos, que queria ser escritora, mas foi para o jornalismo. Por mais de 20 anos foi assessora de comunicação da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, numa rotina sem folgas que ela descreve como “7 por 0”. Em 2009 e 2010, adoeceu com o que identifica como burnout.

Foi nessa fase que começou a pesquisar a história da própria família, descendente de africanos escravizados, para escrever Água de Barrela. Documentos guardados por uma madrinha e um título de eleitor com o sobrenome do trisavô a levaram aos Tosta, família poderosa do Recôncavo Baiano que, segundo historiadores, tinha quase 3 mil pessoas escravizadas.

Sem encontrar editora, o livro venceu em 2015 a primeira edição do Prêmio Literário Oliveira Silveira, da Fundação Cultural Palmares. “A partir dali, pronto, não parei mais de escrever”, contou.

Do Valongo a uma coleção

Nas pesquisas sobre os escravocratas do Recôncavo, o nome Valongo aparecia com frequência: era no Rio que eles compravam e negociavam pessoas. Somado às ruínas do cais descobertas durante as obras dos megaeventos, o achado deu origem a O crime do Cais do Valongo, o livro com que a autora diz ter percebido um projeto literário dedicado a investigar a vida negra no Brasil.

Lançada pela Malê e reeditada neste ano pela Record, a obra abre a coleção Crimes Coloniais. Segundo Eliana, o segundo volume já está pronto e sai em janeiro. O cenário do romance, o Cais do Valongo, acaba de entrar na rede da Unesco de lugares de memória da escravidão.

Academia e televisão

Com Meridiana, Eliana também recebeu o Prêmio Guimarães Rosa, da Academia Brasileira de Letras, na categoria Ficção. No dia 17 de novembro, ela toma posse na Academia Carioca de Letras.

A escritora disse torcer pela volta do Trilha de Letras, que apresentou na TV Brasil e que chamou de “o único programa de literatura na TV aberta”.

Aos jovens escritores negros, ela recomenda não desistir, mesmo com as jornadas exaustivas que tiram o tempo da escrita. “Busquem a própria voz”, aconselhou.