Saúde

Doação de órgãos de goleiro de 14 anos deve salvar seis vidas enquanto fila no Brasil passa de 49 mil

O país faz 7,4 mil transplantes no ano, o equivalente a quase 15% de quem espera. O rim responde por mais de nove em cada dez pacientes na fila
Profissional de saúde aperta a mão de paciente, simbolizando a fila de transplante de órgãos no SUS

A família do goleiro Miguel Meneses, de 14 anos, que morreu nesta semana após um acidente de trânsito, autorizou a doação dos órgãos dele. Foram captados o coração, as córneas, os rins e o fígado, que devem salvar pelo menos seis pessoas.

A doação acontece num momento em que a fila de transplante de órgãos no Brasil não para de crescer. Segundo levantamento do g1, 49.695 pessoas aguardam hoje um órgão compatível.

Transplantes não acompanham a fila

O Brasil é o quarto país do mundo em número absoluto de transplantes. Mesmo assim, os 7,4 mil procedimentos feitos desde o início do ano equivalem a quase 15% dos pacientes que esperam. A principal barreira está na doação, e não na capacidade de fazer as cirurgias.

Rim lidera a demanda

São 46.132 pessoas à espera de um rim, muito à frente do fígado (2.377) e do coração (516). Diabetes e pressão alta, duas das doenças mais comuns no país, danificam os rins aos poucos até que eles param de funcionar.

Na espera, o paciente renal pode fazer hemodiálise, em que uma máquina faz parte do trabalho do órgão. Por isso a espera por um rim pode durar anos, o que não é possível para quem precisa de coração ou pulmão. Também há avanço no transplante entre vivos: em junho, dois irmãos passaram pelo primeiro transplante de rim totalmente robótico da América Latina.

O mais raro e complexo é o transplante multivisceral. Nele, órgãos como estômago, intestino, fígado e pâncreas saem de um mesmo doador e são transplantados em bloco.

Quem está na fila

Os homens são 58% da lista (29.015 pessoas), e as mulheres, 42% (20.680). Nos dois grupos, a faixa de 50 a 64 anos é a mais numerosa, com 11.506 homens e 7.593 mulheres. Em seguida vêm os pacientes de 35 a 49 anos e os com mais de 65.

Crianças e adolescentes também esperam. São 149 meninos e 157 meninas de 11 a 17 anos, além de 30 bebês com menos de 1 ano, 15 meninos e 15 meninas.

Como funciona a lista e quem pode doar

A lista única é gerida pelo SUS e reúne pacientes da rede pública e da privada. A ordem considera o tempo de inscrição e a gravidade de cada caso. Assim, um paciente estável em hemodiálise pode ser ultrapassado por outro em estado mais grave. No coração e no pulmão, o tamanho do órgão também precisa ser adequado ao corpo do receptor, o que torna esses órgãos mais difíceis de encontrar.

Rim, fígado e coração só podem vir de doadores com morte encefálica. A córnea pode ser doada por qualquer pessoa que morreu, mesmo depois da parada do coração. Medula óssea, parte do fígado e um dos rins podem ser doados em vida. O fígado é um dos órgãos captados do jovem goleiro, e um estudo internacional com centros brasileiros mostrou que esse transplante pode garantir sobrevida acima de 80% mesmo em pacientes em estado gravíssimo.

Doenças e prazos

Diabetes, hipertensão, doença de Chagas e hepatites B e C não impedem a doação. Órgãos de quem tinha hepatite podem ir para pacientes com a mesma doença. HIV, câncer e infecção grave no órgão estão entre os poucos impedimentos. Depois da retirada, o coração e o pulmão precisam ser transplantados em 6 a 8 horas, o fígado em até 12 horas e o rim em até 24 horas.

Como se declarar doador

A intenção pode ser registrada na carteira de identidade ou na Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (AEDO), feita online e validada em cartório. Mesmo com o registro, a palavra final é da família. A recusa familiar é um entrave central, e por isso o Ministério da Saúde criou em 2025 um programa que remunera equipes hospitalares que identificam potenciais doadores.