Saúde

Estudo com centros brasileiros mostra que transplante de fígado pode salvar pacientes em estado gravíssimo

Pesquisa Chance aponta sobrevida acima de 80% mesmo com rins, coração ou pulmões afetados; falta de doadores é o novo obstáculo
Profissional de saúde segura a mão de paciente, simbolizando o transplante de fígado pacientes graves no SUS

Pacientes com inflamação grave no fígado e falência de outros órgãos, antes considerados graves demais para receber um transplante, podem ter sobrevida acima de 80% após a cirurgia. É o que mostra o estudo internacional Chance, que teve três centros brasileiros.

A pesquisa reuniu 63 centros especializados em quatro continentes e somou 612 transplantes. O Hospital das Clínicas de São Paulo fez 99 deles, segundo reportagem do Jornal Nacional publicada pelo g1.

O que o estudo mudou

O trabalho se concentrou nos casos em que a doença hepática piora de forma repentina e avassaladora e passa a comprometer, ao mesmo tempo, órgãos como rins, coração, pulmões e o sistema nervoso central. Até então, esse quadro costumava tirar dos pacientes a chance de entrar na disputa por um fígado novo.

Publicados nas revistas mais respeitadas da especialidade, os resultados mostram que o transplante de fígado em pacientes com dois ou três órgãos afetados, além do próprio fígado, troca o risco de morte por uma taxa de sobrevida que pode passar de 80%. A cirurgia também recupera os órgãos que tinham sido atingidos.

Na Ásia, parte dos procedimentos usou um pedaço do fígado de doadores vivos, opção possível porque o órgão é capaz de crescer e se regenerar.

Duas histórias de “tudo ou nada”

A aposentada Maria do Carmo Pereira da Silva participou do estudo. A gordura acumulada no fígado, silenciosa por anos, provocou uma cirrose que avançou rápido e chegou aos rins. “Eu fiquei todinha amarela, amarela, com falta de ar”, relembra. Ela passou pelo transplante há quatro anos.

Moisés de Sousa Carrilho, de 53 anos, teve o fígado destruído por uma cirrose causada pela hepatite C, com danos também aos rins e ao sistema nervoso central. Quando o risco de morte já era iminente, o médico lhe propôs o transplante como uma aposta de “tudo ou nada”. Ele chorou, pensou e aceitou. Foi operado pelo SUS em 2 de outubro e recebeu alta nove dias depois.

O próximo desafio é a fila de espera

Para os médicos que participaram do estudo, a prioridade agora é aumentar o número de doadores. Quase 50 mil pessoas aguardam um órgão na fila de transplantes, e mais de 2,3 mil delas precisam de um fígado.

Outra frente é divulgar os protocolos de cuidados intensivos que permitem estabilizar rapidamente pacientes em estado crítico nas UTIs, condição para que cheguem à cirurgia a tempo.

A prevenção também pesa. O excesso de peso, ligado ao acúmulo de gordura no fígado como o que levou Maria do Carmo à cirrose, já é o principal fator de risco à saúde dos brasileiros.

A segunda chance

Hoje, Maria do Carmo divide o tempo entre o gosto por viagens e os cuidados com uma gatinha em casa. Moisés agora tem chance de vencer a hepatite C e agradece ao doador desconhecido: “Me aceita, não me rejeita, porque eu não vou te rejeitar. Minha segunda chance está aqui”.