Economia

Alimentação saudável está fora do alcance de 44,8 milhões de brasileiros, aponta ONU

Mesmo após a saída do Mapa da Fome, o preço dos alimentos frescos, o foco na exportação e os desertos alimentares dificultam o acesso a uma dieta equilibrada
Prato com alimentos frescos ao lado do emblema da ONU, ilustrando brasileiros sem alimentação saudável

Cerca de um em cada cinco brasileiros, ou 44,8 milhões de pessoas, não tem renda suficiente para pagar por uma alimentação saudável. Isso acontece mesmo com o país fora do Mapa da Fome. O dado é do relatório Sofi, da FAO, agência da ONU para alimentação, divulgado em julho.

O mesmo estudo mostra que a insegurança alimentar moderada ou grave atingiu 20,3 milhões de pessoas entre 2023 e 2025, pouco mais da metade dos 39,7 milhões registrados no triênio anterior.

Em entrevista ao g1, especialistas apontaram o preço dos alimentos frescos, a pesquisa agropecuária voltada à exportação e os desertos alimentares como os desafios do quarto mandato de Lula.

Por que comer bem ficou mais caro

Segundo a FAO, o custo diário de uma dieta saudável no Brasil subiu de 3,97 dólares internacionais por pessoa em 2021 para 4,89 em 2025. Já o número de pessoas sem condições de pagar por ela atingiu o pico em 2021, no auge da pandemia, e vem caindo desde então.

O cálculo compara o preço de uma cesta de 11 alimentos, com cerca de 2.330 calorias diárias, com a renda que sobra depois dos gastos com moradia, vestuário e transporte. A cesta inclui seis grupos: cereais e tubérculos; proteínas animais; leguminosas e castanhas; óleos; frutas; e verduras e legumes. A FAO não informou quais produtos usou no caso brasileiro.

Frescos contra ultraprocessados

Para o especialista Graziano, a valorização do salário mínimo não acompanhou a alta dos alimentos. Ele também afirma que os produtos frescos encarecem mais rápido. “A salsicha sobe menos do que o preço da alcatra, da picanha”, disse, citando os gastos com transporte refrigerado e armazenagem.

Silvia Zimmermann, coordenadora da Rede Penssan, explica que os ultraprocessados usam matérias-primas baratas e abundantes no país, como açúcar, gorduras e derivados de soja. Já as hortaliças têm ciclo curto e sofrem com secas e enchentes, que se tornaram mais frequentes. Além disso, dependem de combustíveis e fertilizantes importados, que encareceram com as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.

Pesquisa voltada para fora

Graziano diz que os investimentos em pesquisa agropecuária são “fortemente enviesados” para soja, milho e carne bovina, deixando hortaliças, arroz e feijão em segundo plano. Elisabetta Recine, presidente do Consea, cita o Vale do São Francisco (PE), polo de manga e uva voltado à Europa e aos EUA, em vez das frutas tradicionais da região.

O relatório que manteve o Brasil fora do Mapa da Fome já mostrava a insegurança alimentar severa em 0,6%, ao lado do custo crescente da dieta saudável.

Desertos alimentares e o desafio de chegar a quem precisa

Dados do Ministério do Desenvolvimento Social indicam que 25 milhões de brasileiros viviam em desertos alimentares entre 2023 e 2024. Desses, 6,7 milhões eram de baixa renda. Outros 15 milhões viviam em pântanos alimentares. Nas periferias, resume Graziano, é fácil achar cachorro-quente, mas difícil comprar uma maçã.

Entre as soluções sugeridas estão feiras livres com isenção de taxas para feirantes e mais apoio à agricultura familiar, que produz 60% das hortaliças, por meio de programas como o PAA.

Protocolo Brasil Sem Fome

Para atender os mais vulneráveis, o governo implanta nos municípios com os piores indicadores o Protocolo Brasil Sem Fome, que integra saúde, assistência social e segurança alimentar. Recine lembra que até quem vive na rua passa, em algum momento, por um posto de saúde ou uma cozinha solidária. Zimmermann defende a busca ativa e o cruzamento de dados com o Cadastro Único.

Em maio, o Brasil também propôs à OMS regras globais para a venda e a publicidade de ultraprocessados, com o objetivo de levar o tema à votação em 2027.

Os especialistas alertam para o risco de retrocesso. O país saiu do Mapa em 2014 e voltou a ele em 2022, quando 61,3 milhões de pessoas enfrentavam insegurança alimentar. Quando a ONU anunciou a nova saída do país, em 2025, os desertos alimentares e o foco exportador já eram apontados como obstáculos.