Política

PF indicia Vorcaro e ex-presidente do BRB por fraude de R$ 17,5 bi no caso Master

Relatório enviado ao STF descreve carteiras simuladas em Excel e pagamentos do banco estatal mesmo após alertas de risco
PF indicia Vorcaro caso Master: Daniel Vorcaro em primeiro plano, com o distintivo da Polícia Federal e a fachada do BRB

A Polícia Federal indiciou o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e mais 13 pessoas no principal inquérito do caso Master. O relatório parcial, com mais de 700 páginas, foi enviado ao STF nesta quarta-feira (28).

Para a PF, os dois formavam o núcleo estratégico de um esquema que negociou cerca de R$ 17,5 bilhões em ativos sem lastro real entre o banco privado e o banco estatal de Brasília.

A corporação também pediu mais 60 dias para concluir a investigação.

Quem foi indiciado e por quais crimes

O relatório classifica Vorcaro como “líder da organização”. Ele foi indiciado pelos supostos crimes de gestão fraudulenta, fraude gerencial, organização criminosa e lavagem de dinheiro. O ex-banqueiro foi preso em março, na terceira fase da Operação Compliance Zero.

Costa aparece como “o principal agente de articulação institucional” dentro do BRB e foi indiciado por gestão fraudulenta e organização criminosa. Ele foi preso em abril, na quarta fase da operação.

Planilhas no lugar de contratos

Segundo a PF, diretores do Master manipularam registros em planilhas do Excel para simular carteiras de crédito consignado que não existiam. No BRB, a diretoria teria aceitado e pago pelas carteiras apenas com base nesses arquivos, deixando de lado os controles de governança.

A perícia aponta ainda indícios de fabricação retroativa de documentos e de assinaturas digitais em lote de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), feitas com ferramentas de automação para dar aparência legal a operações já liquidadas. No Master, os alertas do compliance teriam sido sistematicamente neutralizados.

Duas versões para a origem dos ativos

Os investigadores afirmam que a cúpula do Master mudou a explicação sobre a origem dos créditos. Primeiro, disse que vinham de entidades associativas da Bahia, que não tinham movimentação financeira compatível com os valores. Questionados pelo Banco Central, os executivos passaram a apontar a Tirreno Consultoria Promotoria de Crédito e Participações S.A.

A perícia concluiu que a Tirreno era recém-criada, sem funcionários nem movimentação real por Pix, TED ou boletos. Para a PF, tinha características de empresa de prateleira, usada para simular transações e manter os recursos sob controle do Master.

Alertas ignorados no banco público

Mensagens apreendidas mostram que técnicos do BRB detectaram inconsistências nas bases recebidas, como um suposto servidor público com margem consignável de R$ 114 mil. Os boletins diários de risco emitiram 51 alertas e registraram 13 extrapolações no Indicador de Liquidez e Capitais Prudenciais (ILCP).

Mesmo depois da primeira extrapolação, o BRB fez 42 pagamentos ao Master, que somaram R$ 7,417 bilhões. As tratativas, segundo a PF, eram conduzidas diretamente pela alta liderança dos dois bancos.

O que dizem as defesas

Em nota, a defesa de Vorcaro afirmou que o negócio com as carteiras da Tirreno não foi concluído e que elas foram substituídas por outros ativos, sem prejuízo ao BRB. A defesa de Costa disse ter recebido o indiciamento com surpresa e sustentou que ele “não tinha conhecimento das fraudes nas carteiras”.

Próximos passos no STF

O inquérito está com o presidente do STF, Edson Fachin, que afastou temporariamente o ministro André Mendonça da relatoria em meio à crise entre os magistrados. Em julho, a PF projetava concluir o inquérito em agosto, e agora pede mais prazo. Em setembro, outro relatório da corporação mostrou que o grupo de Vorcaro teve acesso antecipado a investigações sigilosas do MPF sobre a negociação entre o Master e o BRB.