Política

PF revela acesso do grupo de Vorcaro a investigações do MPF

Credenciais de servidora do MPF-MA roubadas por phishing foram usadas 5 vezes; invasões ao caso Master remontam a 2023
Vorcaro acesso investigações MPF: PF desvenda invasão de sistemas da Procuradoria-Geral da República

Diálogos obtidos pela Polícia Federal (PF) revelam que o banqueiro Daniel Vorcaro teve acesso antecipado a investigações sigilosas do Ministério Público Federal (MPF) sobre a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB.

As buscas ilegais em sistemas restritos foram coordenadas por Luiz Phillipi Mourão, o Sicário, usando logins de servidores do MPF, aponta relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em ao menos um caso, as credenciais foram obtidas por phishing: as de uma servidora do MPF-MA foram exploradas em pelo menos cinco ocasiões distintas, entre 2023 e 2024.

Buscas por CPF e nome do banco revelam mapeamento prévio

Segundo a PF, em 23 de julho de 2025 o Sicário enviou a Vorcaro o resultado de uma busca feita nos sistemas do MPF com os termos “BRB AND MASTER”, usada para localizar apurações sobre a negociação entre as duas instituições. Uma pesquisa paralela, com o CPF do banqueiro, encontrou 15 procedimentos — 11 deles sob segredo de justiça.

Peritos identificaram que, em um dos documentos enviados a Vorcaro, o nome do servidor responsável pela consulta havia sido encoberto com um “hachurado branco”. A tentativa não funcionou: os metadados do PDF continuavam preservados e foram recuperados pela perícia da PF.

No dia seguinte, 24 de julho, o grupo teve acesso ao teor da Notícia de Fato aberta no MPF do Distrito Federal — o documento que deu origem formal à Operação Compliance Zero, deflagrada meses depois e que resultou na prisão de Vorcaro.

Espionagem remonta a 2023

O relatório da PF situa o início das invasões antes do que se sabia. A primeira consulta identificada ocorreu em 2023: o Sicário usou as credenciais de Alina Franco Boueres de Araújo, servidora do MPF do Maranhão lotada no gabinete do procurador Marcílio Nunes Medeiros, para buscar informações sobre notícias-crimes apresentadas pelo jornalista Vladimir Timmerman — que havia publicado reportagens relacionadas a Vorcaro.

As mesmas credenciais foram exploradas ao menos cinco vezes no total. O login também foi utilizado em março, junho e julho de 2024. Em 18 de junho daquele ano, após Vorcaro repassar um despacho da Delecor de São Paulo, o Sicário acionou contatos e devolveu um levantamento com seis processos sigilosos envolvendo o banqueiro. Três dias depois, ofereceu estender as buscas a sócios e executivos do Master, entre eles Fabiano Zettel, Henrique Vorcaro, Maurício Quadrado e Nelson Tanure.

O MPF-MA informou que Alina foi vítima de phishing — golpe usado para capturar senhas e acessos indevidamente. Comunicado pela PF em 2025, o órgão instaurou investigação interna, que concluiu pelo uso indevido das credenciais, e adotou medidas para bloquear novos acessos não autorizados.

Sigilo derrubado em meio à crise no Supremo

O relatório se tornou público depois que o ministro André Mendonça retirou o sigilo dos documentos do caso Master, atendendo a pedido do presidente do STF, Luiz Edson Fachin, em meio à crise que atinge a Corte. As apurações fundamentaram a decisão de Mendonça, que determinou a segunda prisão de Vorcaro — voto que integrou o placar de 2 a 0 formado no STF pela manutenção da prisão.

A PF ressalva que o uso recorrente das credenciais não comprova, por si só, participação consciente dos servidores no esquema — as extrações podem ter ocorrido “com ou sem participação consciente” dos titulares dos acessos funcionais, hipótese que segue sob apuração. Luiz Phillipi Mourão, chefe operacional d’“A Turma” e responsável por coordenar as extrações, está preso desde março, quando a Compliance Zero avançou para sua terceira fase.