Diálogos obtidos pela Polícia Federal (PF) revelam que o banqueiro Daniel Vorcaro teve acesso antecipado a investigações sigilosas do Ministério Público Federal (MPF) sobre a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB.
As buscas ilegais em sistemas restritos foram coordenadas por Luiz Phillipi Mourão, o Sicário, usando login funcional de servidores do MPF, aponta relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Buscas por CPF e nome do banco revelam mapeamento prévio
Segundo a PF, em 23 de julho de 2025 o Sicário enviou a Vorcaro o resultado de uma busca feita nos sistemas do MPF com os termos “BRB AND MASTER”, usada para localizar apurações sobre a negociação entre as duas instituições. Uma pesquisa paralela, com o CPF do banqueiro, encontrou 15 procedimentos — 11 deles sob segredo de justiça.
Peritos identificaram que, em um dos documentos enviados a Vorcaro, o nome do servidor responsável pela consulta havia sido encoberto com um “hachurado branco”. A tentativa não funcionou: os metadados do PDF continuavam preservados e foram recuperados pela perícia da PF.
No dia seguinte, 24 de julho, o grupo teve acesso ao teor da Notícia de Fato aberta no MPF do Distrito Federal — o documento que deu origem formal à Operação Compliance Zero, deflagrada meses depois e que resultou na prisão de Vorcaro.
Espionagem remonta a 2024
O relatório da PF situa o início das invasões no primeiro semestre de 2024. Em 18 de junho daquele ano, após Vorcaro repassar um despacho da Delecor de São Paulo, o Sicário acionou contatos e devolveu um levantamento com seis processos sigilosos envolvendo o banqueiro. Três dias depois, ofereceu estender as buscas a sócios e executivos do Master, entre eles Fabiano Zettel, Henrique Vorcaro, Maurício Quadrado e Nelson Tanure.
Sigilo derrubado em meio à crise no Supremo
O relatório se tornou público depois que o ministro André Mendonça retirou o sigilo dos documentos do caso Master, atendendo a pedido do presidente do STF, Luiz Edson Fachin, em meio à crise que atinge a Corte. As apurações fundamentaram a decisão de Mendonça, que determinou a segunda prisão de Vorcaro — voto que integrou o placar de 2 a 0 formado no STF pela manutenção da prisão.
A PF ressalva que o uso recorrente dos logins de servidores do MPF não comprova, por si só, participação consciente deles no esquema — hipótese que segue sob apuração. Luiz Phillipi Mourão, chefe operacional d’“A Turma” e responsável por coordenar as extrações, está preso desde março, quando a Compliance Zero avançou para sua terceira fase.