A fragmentação de habitats no Brasil avançou de forma contínua nas últimas quase quatro décadas. Segundo o MapBiomas, o país passou de 2,35 milhões de fragmentos de vegetação nativa em 1986 para 3,41 milhões em 2024.
No mesmo período, a área média de cada fragmento encolheu de 287 para 163 hectares. Os números são do módulo de Degradação da plataforma. Eles mostram ilhas de vegetação cada vez menores e mais isoladas, uma das principais ameaças à biodiversidade.
Mata Atlântica concentra mais de um terço das ilhas de vegetação
Como mostrou reportagem de Duda Menegassi no ((o))eco, a Mata Atlântica lidera o ranking, com 1,38 milhão de fragmentos. É historicamente o bioma mais desmatado do país e foi reduzido a cerca de um quinto da cobertura original, resultado de séculos de desmatamento e da expansão das capitais mais populosas.
O bioma também tem as menores áreas médias de remanescentes, com apenas 25 hectares. O caso extremo é São João de Meriti, na Baixada Fluminense (RJ), onde cada fragmento tem, em média, 1,9 hectare.
O município não é exceção. Quase metade das cidades brasileiras tem área média de fragmentos inferior a 25 hectares, sobretudo no Sul e no Sudeste. No Pampa, as menores médias chegam a 81 hectares.
Cerrado e Amazônia também perdem continuidade
O Cerrado aparece em segundo lugar, com 957 mil fragmentos. Os menores deles têm média de 105 hectares.
A Amazônia ainda reúne as áreas mais extensas e contínuas, mas o número de fragmentos mais que triplicou entre 1986 e 2024, de 144 mil para 519 mil. A área média caiu 76%, de 2,7 mil para 662 hectares. O Amazonas tem os melhores índices, com fragmentos de 4 mil hectares em média.
“Essa redução da conectividade afeta diretamente a capacidade de dispersão e reprodução das espécies nativas que vivem nesses fragmentos, reduzindo o fluxo gênico e aumentando o risco de extinções locais”, afirma Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM e coordenador técnico do grupo de Degradação do MapBiomas. Segundo ele, fragmentos menores ficam mais expostos aos efeitos de borda e ao fogo, especialmente em anos de eventos climáticos extremos.
Um estudo publicado em julho na Landscape Ecology já havia mostrado que a fragmentação não aumenta a biodiversidade real: em fragmentos menores, espécies florestais dão lugar a espécies generalistas.
Corredores ecológicos entram na pauta da COP17
Na COP17, a conferência da biodiversidade realizada na Armênia, a delegação brasileira defende a criação de um quinto elemento dedicado à conectividade ecológica no Programa de Trabalho sobre Áreas Protegidas. O programa está em revisão para se alinhar ao Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, aprovado em 2022.
A proposta tem apoio do WWF e da Convenção sobre Espécies Migratórias. Ela prevê incluir conexões terrestres, aquáticas e marinhas no planejamento territorial, com participação de povos indígenas e comunidades locais, cooperação entre países e indicadores nacionais de monitoramento.
O marco global estabelece que, até 2030, ao menos 30% das áreas terrestres, de águas interiores, costeiras e marinhas estejam conservadas, protegidas e bem conectadas. Hoje, 17,5% das áreas terrestres e de águas continentais do planeta estão protegidas ou conservadas, mas só 8,5% das terras protegidas estão bem conectadas.
Rio de Janeiro cria programa estadual
O governo fluminense anunciou na conferência o Programa Estadual de corredores ecológicos (Decreto nº 50.533/2026), publicado em outubro. Segundo a SEAS-RJ, os corredores serão definidos com base em estudos técnicos e consulta pública e poderão ter prioridade no uso de recursos de compensações ambientais e de fundos estaduais.
O programa prevê restauração de matas ciliares e nascentes, incentivo a RPPNs, pagamento por serviços ambientais e passagens de fauna em rodovias e outras obras de infraestrutura, como linhões e gasodutos. No litoral, a meta é proteger manguezais, estuários e rotas migratórias.