Saúde

Plano de emergência do SUS precisa incluir pacientes com câncer, defendem pesquisadores

Lições da Covid-19 e das enchentes no Rio Grande do Sul deram origem a cinco prioridades publicadas na revista The Lancet Regional Health – Americas
Profissional de saúde aperta a mão de paciente, simbolizando o tratamento de câncer SUS emergências

Pandemias e desastres climáticos não podem interromper o diagnóstico e o tratamento de quem tem câncer. Para evitar isso, o atendimento oncológico precisa constar de forma explícita nos planos de emergência do SUS.

É o que defendem os pesquisadores João Paulo de Biaso Viola, Alessandro Jatobá, Beatriz Jardim, Heloise Fernandes Agreli e Rafael José Vargas Alves em artigo publicado nesta quarta-feira (28) no g1.

As propostas saíram de um workshop nacional realizado em dezembro de 2025, no Rio de Janeiro, e foram reunidas em estudo científico.

O encontro foi organizado pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA). Formuladores de políticas públicas, profissionais de saúde, pesquisadores e representantes da sociedade civil partiram de duas experiências recentes: a pandemia de Covid-19 e as inundações que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024.

Nas duas crises, consultas e procedimentos foram adiados, unidades perderam capacidade de funcionar e pacientes tiveram dificuldade para se deslocar e conseguir medicamentos. Segundo os autores, o impacto é maior entre quem já enfrenta barreiras econômicas, territoriais e sociais.

Por que a pressão sobre o sistema tende a crescer

O câncer é a segunda principal causa de morte no Brasil. Projeções da IARC indicam que o número anual de casos no país pode crescer 84% entre 2022 e 2050. Em escala global, relatório da OMS divulgado em julho já projetava que os casos podem quase dobrar até 2050.

Para os pesquisadores, a resiliência do controle do câncer vai além de reabrir hospitais depois da emergência. Significa antecipar ameaças, absorver impactos, adaptar os serviços e preservar toda a jornada do paciente, da prevenção aos cuidados paliativos.

As cinco prioridades propostas

Planos e sistemas de informação

A primeira prioridade é incluir a assistência oncológica nos planos de contingência, definindo quais serviços continuam funcionando e como reorganizar os fluxos de atendimento, com pactuação entre União, estados e municípios. A segunda é integrar os sistemas de informação em saúde, hoje fragmentados, para localizar pacientes com exames ou tratamentos pendentes e redistribuir a demanda, sem abrir mão da proteção de dados pessoais.

Estrutura, equipes e retomada

A terceira prioridade é proteger hospitais, serviços de radioterapia, laboratórios, transporte e abastecimento, além de preparar as equipes com protocolos claros. A quarta é planejar a retomada pela necessidade clínica e social, e não só pela capacidade operacional das unidades. A quinta é ter financiamento flexível para emergências.

O estudo organiza essas medidas em quatro dimensões que dependem umas das outras: governança, prestação de serviços, recursos e financiamento. Sem informação confiável, fica difícil identificar quem teve o tratamento interrompido. Sem coordenação entre gestores, esse paciente não chega a outro serviço. E, sem dinheiro disponível, a resposta pode chegar tarde.

Equidade na recuperação

Os autores alertam que reabrir os atendimentos sem olhar para quem mais precisa pode ampliar desigualdades que já existem. Pacientes com maior risco clínico, tratamento interrompido ou dificuldade de acesso devem ser priorizados, com apoio da atenção primária. Mesmo fora das crises, pacientes do Norte percorrem até seis vezes mais que os do Sul para fazer radioterapia pelo SUS, distância que uma emergência só tende a aumentar.

Sem estrutura paralela

Segundo o grupo, as propostas não exigem criar uma estrutura paralela ao SUS, e sim fortalecer mecanismos que já existem, melhorar a coordenação regional e incluir a resiliência no planejamento regular. Para sair do papel, as medidas dependem de compromissos concretos: responsabilidades institucionais definidas, recursos adequados, indicadores de continuidade do cuidado e avaliações que transformem as lições de cada crise em melhorias permanentes.