Pacientes do SUS com câncer de pulmão e alteração no gene ALK sobrevivem significativamente menos que os atendidos por planos privados. A conclusão vem de dois estudos do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT), publicados neste ano no JCO Global Oncology.
Três anos após o diagnóstico, 87% dos pacientes da rede privada ainda estavam vivos. No SUS, esse índice caía para 61%.
O tempo em que o câncer ficou sob controle foi três vezes maior no setor privado: 40 meses contra apenas 11 meses na rede pública.
Diagnóstico que não chega
A desigualdade começa antes do tratamento. Para confirmar a alteração ALK no tumor, é preciso um exame genético específico. Na rede privada, 94% dos oncologistas têm acesso rotineiro ao teste. No SUS, menos da metade — 44% — consegue realizá-lo com regularidade.
Os médicos apontaram como principais causas a falta de reembolso pelos hospitais públicos e amostras de biópsia insuficientes para análise. Em muitos casos, diante da urgência clínica, a quimioterapia começa antes do resultado genético — o que compromete a chance de o paciente receber o tratamento adequado ao seu perfil tumoral.
O reflexo aparece em um dado revelador: dos pacientes com mutação ALK identificados nos 12 hospitais do estudo, apenas 1 em cada 5 era atendido pelo SUS — sistema responsável por cerca de 75% da população. Isso indica que boa parte dos pacientes da rede pública nunca chega a ser testada e, portanto, nunca recebe o tratamento mais eficaz para o seu tipo de tumor.
O remédio existe, mas não chega
Mesmo com diagnóstico confirmado, o acesso ao tratamento é desigual. O SUS incorporou o crizotinibe em 2022 e o brigatinibe em 2025. Mas o reconhecimento formal não se traduziu em acesso real: apenas 1 em cada 10 oncologistas da rede pública disse ter o crizotinibe disponível desde o início do tratamento.
Na rede privada, o cenário é oposto: 8 em cada 10 médicos têm acesso ao alectinibe — hoje considerado o tratamento de referência para tumores com ALK — desde a primeira consulta.
O problema, segundo os autores do estudo, é financeiro: o valor que o SUS repassa aos hospitais não cobre o custo real do medicamento. Para não operar no prejuízo, as unidades de saúde recorrem à quimioterapia, mais barata, mesmo quando ela não é a melhor opção clínica para aquele paciente.
Barreira econômica e caminhos possíveis
“Nos nossos dados, essa desigualdade de acesso virou diferença real de resultado clínico”, resume a oncologista Samira Mascarenhas, presidente eleita do GBOT e autora dos dois estudos. Para ela, o principal obstáculo da medicina de precisão no Brasil hoje não é científico nem regulatório: “É principalmente econômico, de colocar em prática.”
O atraso regulatório ainda pesa. A Anvisa levou cinco anos a mais que os Estados Unidos para aprovar os primeiros inibidores ALK no país — e o mesmo padrão de dificuldade de acesso se repete em outras alterações genéticas tratáveis com terapias similares.
Mascarenhas defende modelos já usados em outros países: negociação direta com fabricantes ou pagamento condicionado à eficácia do remédio no paciente — alternativas que poderiam ser adaptadas ao SUS para viabilizar o acesso sem comprometer o orçamento público.
O mesmo gargalo entre incorporação formal e acesso efetivo se repete em outras doenças. Quando o SUS incorporou o venetoclax para leucemia mieloide aguda, os hospitais receberam até 180 dias para efetivar o acesso — um intervalo que, no caso do câncer de pulmão, os estudos do GBOT mostram que pode custar vidas. Leia mais sobre a incorporação do venetoclax no SUS.
O Ministério da Saúde informou que disponibilizará 23 novos medicamentos oncológicos de alto custo a partir de outubro, entre eles brigatinibe, gefitinibe e durvalumabe para câncer de pulmão. A pasta classificou o movimento como “a maior entrega já realizada pelo SUS” em oncologia — com aumento de 35% na oferta de fármacos, previsão de atender mais de 112 mil pacientes e custeio integralmente federal.
