A taxa de mortalidade por câncer de mama entre mulheres negras é 3,8 vezes maior do que entre mulheres brancas. O dado é de uma publicação do Instituto Nacional de Câncer (Inca) lançada nesta terça-feira (27), no Rio de Janeiro.
O resultado chama atenção porque a doença é mais frequente entre as brancas. Segundo o Inca, a diferença pode estar ligada ao acesso desigual ao diagnóstico precoce e ao tratamento. Outro fator citado é a maior frequência, entre as negras, de um subtipo mais agressivo do tumor.
Menos rastreamento e tumores mais graves
O estudo Disparidades Raciais na Incidência do Câncer de Mama é o primeiro volume da série Disparidades Raciais e Câncer de Mama: um Olhar para a Saúde das Mulheres Negras. A divulgação ocorreu dentro da campanha Outubro Rosa. O trabalho reúne 24 estudos realizados em seis países, entre eles o Brasil.
Renata Maciel, coordenadora da divisão de detecção precoce do Inca, afirmou que a maior mortalidade “pode estar relacionada ao acesso ao diagnóstico precoce e às terapias de tratamento no serviço de saúde”. Ela também apontou que “as mulheres negras têm incidência maior do subtipo triplo negativo, que é mais grave”.
Outro ponto destacado pela coordenadora é a menor realização de exames de rastreamento, feitos quando ainda não há sintomas. A comparação considerou mulheres de 50 a 69 anos, faixa em que, segundo ela, as brancas fazem mais esses exames preventivos. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde, mais de 61% das mulheres brancas fazem mamografia de rastreamento, índice que fica entre 54% e 56% entre as pretas e pardas.
O acesso ao rastreamento é um gargalo conhecido da doença. Pesquisadores brasileiros já testam um exame de sangue capaz de identificar o câncer de mama antes da mamografia, inclusive em mulheres que nunca tinham sido rastreadas.
Diagnóstico mais tardio
Para o diretor-geral do Inca, Roberto Gil, o levantamento indica que a mulher negra pode ter uma forma da doença biologicamente mais agressiva e, ao mesmo tempo, menos acesso aos serviços de saúde, o que atrasa o diagnóstico. “O estudo mostra a necessidade de construir políticas públicas com equidade, possibilitando acesso uniforme de todas as populações aos serviços de saúde”, disse.
A publicação indica que mulheres pretas e pardas são diagnosticadas em estágios mais avançados e em idades mais jovens. Sobre o subtipo triplo negativo, Gil explicou que o tumor não expressa nenhum marcador de membrana e que esses tumores “evoluem mais rapidamente, proliferam mais, dão mais metástase”, o que exige uma abordagem mais urgente e um tratamento específico.
O documento lista ainda as desigualdades socioeconômicas, as barreiras de acesso à saúde e o estresse ligado às condições de vida entre os fatores que podem contribuir para as disparidades. Também ressalta que é preciso considerar a ancestralidade e a genética para entender melhor as diferenças.
Prevenção e fatores de risco
Na prevenção, Gil afirmou que as mulheres negras estão consumindo mais bebidas alcoólicas do que as de outras etnias e lembrou que o álcool está relacionado ao câncer de mama. O Inca já tinha alertado que o álcool é fator de risco comprovado para o câncer e que não há dose segura.
O documento recomenda fortalecer as políticas de prevenção para reduzir fatores de risco modificáveis, como obesidade e consumo de álcool, e incentivar práticas protetoras, como alimentação saudável, atividade física e aleitamento materno. Segundo o Inca, cerca de 17% dos casos poderiam ser evitados com esses hábitos.
O câncer de mama é o tipo mais incidente entre as brasileiras, e cerca de quatro em cada cinco diagnósticos ocorrem a partir dos 50 anos. A desigualdade racial também aparece em outros tumores: um estudo do Lancet com dados do Inca mostrou que o atraso no tratamento do câncer colorretal atinge mais pessoas pretas e pardas.
Diagnóstico em campanha
Em relato à Agência Brasil durante o lançamento, a artesã Solange Barbosa de Freitas, de 57 anos, contou que descobriu a doença em 2019, em um exame de rotina de uma campanha do Outubro Rosa, sem ter sintomas. “Fiz três cirurgias, tirei uma das mamas e fiz a reconstrução”, disse.
Em entrevista ao g1, a recepcionista Joyce do Nascimento contou que recebeu o diagnóstico há quase dez anos, aos 23. Ela passou por quimioterapia e, um ano depois, fez mastectomia total da mama esquerda, com retirada de parte do tecido das axilas. Joyce disse não ter enfrentado dificuldades para acessar o tratamento, realidade que, segundo os dados do Inca, não é a de muitas mulheres negras com a doença.
O evento, realizado na sede do Inca na Praça Cruz Vermelha, no centro do Rio, também marcou o Dia Nacional de Mobilização Pró-Saúde da População Negra.