Pesquisadores brasileiros desenvolveram um exame de sangue capaz de identificar sinais de câncer de mama por meio de biomarcadores — e os resultados iniciais apontam acurácia de cerca de 95%.
O RosalindTest, criado pela Faculdade de Medicina do ABC, usa técnica de biópsia líquida para detectar alterações genéticas ligadas ao crescimento de tumores antes mesmo de elas aparecerem em exames de imagem.
O teste ainda está em fase de validação, mas já foi aplicado em mais de mil mulheres — incluindo agricultoras no interior de São Paulo e do Ceará que nunca haviam feito rastreamento de câncer de mama.
O Brasil enfrenta um cenário preocupante no combate ao câncer de mama: cerca de 20 mil mulheres morrem da doença por ano, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), mesmo sendo uma das neoplasias com maior chance de cura quando detectada cedo.
Uma das maiores barreiras é o acesso à mamografia. Em regiões afastadas e na rede pública, a oferta é insuficiente. No SUS, o rastreamento era recomendado para mulheres de 50 a 69 anos até 2025, quando o Ministério da Saúde ampliou a faixa para a partir dos 40 anos — mas a doença tem surgido em mulheres cada vez mais jovens e de forma agressiva.
Como o RosalindTest funciona
O exame analisa dois biomarcadores no sangue: HIF-1α e GLUT1, genes que se alteram quando células tumorais crescem em ambiente com baixo oxigênio — processo chamado hipóxia tumoral. Ao contrário da mamografia, o teste identifica essas alterações moleculares no sangue antes que o tumor apareça em imagens.
Em parceria com o Senar, o RosalindTest foi aplicado em 600 mulheres rurais no interior de São Paulo e do Ceará — muitas das quais nunca tinham feito qualquer rastreamento para câncer de mama.
Um caso da fase de validação exemplifica o potencial da tecnologia: uma paciente apresentou os valores mais altos de biomarcadores já registrados, mas mamografia e ultrassom vieram negativos. Ao realizar uma ressonância magnética, foi encontrado um tumor em primeiro estágio. O diagnóstico precoce dispensou quimioterapia e radioterapia.
Complemento, não substituto
A proposta do RosalindTest é funcionar como triagem inicial, não substituir a mamografia. Em caso de resultado positivo para biomarcadores, a paciente seria encaminhada com prioridade para exames de imagem. O modelo se assemelha ao rastreamento do câncer de próstata, que já usa teste de sangue como primeira etapa.
A mamografia também tem expandido seu alcance diagnóstico: pesquisadores já demonstraram que ela pode revelar risco cardíaco em mulheres, evidenciando que a tecnologia de imagem tem potencial inexplorado — e que o RosalindTest surge como complemento, não concorrente.
O exame integra um movimento mais amplo da pesquisa oncológica nacional. Assim como iniciativas para viabilizar a terapia CAR-T pelo SUS, o RosalindTest representa a aposta brasileira em tornar diagnóstico e tratamento do câncer mais acessíveis no sistema público.
“A gente não pode impedir que o câncer apareça, mas podemos impedir que ele mate. Queremos facilitar o acesso e tornar o processo menos prejudicial para a mulher”, afirma Beatriz Aguiar, pesquisadora do projeto.
Especialistas externos reconhecem o potencial, mas pedem cautela. O mastologista José Carlos Sadalla alerta que os biomarcadores HIF-1α e GLUT1 podem estar alterados em outros tipos de câncer — não apenas no de mama. Para ele, o número de pacientes testadas ainda precisa crescer antes de o exame ser adotado em larga escala.