Saúde

Proteína p53 aponta risco de retorno do câncer de endométrio em estudo do INCA

Revisão de 15 anos no SUS mostra que nenhuma paciente sem alteração no marcador teve recidiva em cinco anos
Fachada do INCA, instituição por trás do estudo sobre o marcador p53 câncer de endométrio e risco de recidiva no SUS

Um marcador molecular que já existe nos laboratórios de patologia do país pode indicar quais pacientes com câncer de endométrio correm mais risco de ver o tumor voltar. É o que aponta um estudo do Instituto Nacional de Câncer (INCA) publicado na revista Pathology and Oncology Research.

A pesquisa revisou 15 anos de atendimentos, entre 2010 e 2025, e analisou 59 casos de tumores de alto grau restritos ao endométrio ou a um pólipo, sem invasão do músculo uterino — um perfil até aqui lido como de evolução mais branda.

Todas as recidivas apareceram no mesmo grupo

Em 78% dos tumores analisados, a proteína p53, chamada de guardiã do DNA, apresentava expressão anormal. Entre as 56 pacientes classificadas no estágio mais agressivo, nove tiveram a doença de volta — e todas as nove estavam nesse grupo alterado.

A taxa estimada de recorrência em cinco anos entre elas ficou em torno de 23%. Nenhuma paciente com p53 do tipo selvagem, sem alteração, teve recidiva no mesmo período. Mais da metade das recorrências surgiu fora da pelve, no abdome ou em órgãos distantes.

Exame antigo, uso novo

A leitura da p53 foi feita por imuno-histoquímica, técnica relativamente simples e disponível em boa parte dos serviços de patologia. Em artigo assinado no g1, os pesquisadores Andreia Cristina de Melo e Eduardo Paulino afirmam que já havia trabalhos internacionais sobre esses tumores, mas que este é o primeiro a cruzar o marcador com desfechos de uma população brasileira atendida pela rede pública ao longo de 15 anos.

Outro diferencial apontado é a amplitude: o levantamento não se restringiu ao carcinoma seroso, incluindo também carcinoma endometrioide grau 3, células claras, carcinossarcoma e tumores mistos ou indiferenciados.

Dois caminhos possíveis de tratamento

Hoje, mulheres com tumores aparentemente semelhantes recebem condutas muito diferentes. O estudo sugere separá-las em dois grupos: as de p53 anormal, candidatas a avaliação cirúrgica mais completa, acompanhamento rigoroso e eventual tratamento adicional; e as de p53 selvagem, que tiveram excelente evolução e talvez possam ser poupadas de terapia desnecessária. Como parte das recidivas ocorre longe do útero, a vigilância do primeiro grupo não deveria parar na região pélvica.

O mesmo gene está no centro de outra frente da pesquisa genética brasileira: a variante hereditária TP53 R337H, ligada à Síndrome de Li-Fraumeni, já foi encontrada em milhares de brasileiros por um mapeamento genômico nacional.

O recado de saúde pública vem junto: o principal sinal de alerta do câncer de endométrio é o sangramento uterino anormal, sobretudo depois da menopausa, sintoma ainda tratado como alteração natural do corpo. A investigação passa por ultrassonografia transvaginal, histeroscopia e biópsia do endométrio. A estimativa do INCA aponta 9.650 novos casos por ano no triênio 2026-2028.

O trabalho é conduzido pela Divisão de Pesquisa Clínica e Desenvolvimento Tecnológico do INCA, com apoio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Genômica do Câncer e Medicina de Precisão para o SUS — o que, na prática, significa direcionar recurso público a quem tem mais chance de se beneficiar dele.