Mais de 6% das florestas alagáveis e de outras áreas úmidas da Amazônia foram desmatadas nos últimos 40 anos. Quase um terço dessa perda ocorreu entre 2015 e 2024, segundo estudo liderado por um pesquisador da Unicamp.
A área convertida tem o tamanho da Bélgica, pouco maior que Alagoas. O estudo indica que o tipo de posse da terra define o ritmo do desmatamento. As maiores perdas estão nas terras públicas sem destinação e nos assentamentos de reforma agrária.
Várzeas e igapós são florestas que ficam inundadas por meses quando os rios amazônicos transbordam. Essas áreas úmidas ocupam cerca de 30% da Amazônia brasileira. Nelas vivem famílias ribeirinhas em casas sobre palafitas, com a pesca e o plantio acompanhando o ciclo de cheia e vazante dos rios.
“Quando pensamos em 6%, podemos ter a impressão de que é pouco, mas a área convertida é basicamente do tamanho da Bélgica”, disse por telefone Guilherme Lobo, autor principal do estudo e pesquisador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em entrevista à Mongabay, em reportagem com edição de Xavier Bartaburu.
Terras públicas sem destino lideram a perda
Os pesquisadores compararam o desmatamento de áreas úmidas em 13 categorias fundiárias, e as diferenças foram grandes. Nas terras públicas não destinadas a um uso específico, a mediana do percentual de área úmida desmatada chegou a quase 14%, a maior entre todas as categorias.
Segundo Lobo, essas terras são queimadas para demonstrar que estão em uso, na esperança de obter o título de propriedade. Um estudo de 2026 do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) aponta que a legislação fundiária federal e estadual cria incentivos à grilagem: o desmatamento serve como prova de uso produtivo para justificar pedidos de titulação, e terras públicas não destinadas são concedidas com frequência a quem as desmata.
O novo estudo se soma ao balanço do MapBiomas divulgado duas semanas antes, que mostrou queda recorde do desmatamento em 2025, mas 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa perdidos desde 1985.
Onde há regras, a floresta alagável resiste
No outro extremo, as áreas controladas pelas Forças Armadas tiveram a menor taxa de conversão, inferior a 0,01%. Nas terras indígenas formalmente reconhecidas, o índice foi de 0,2%. Nas que aguardam demarcação, ficou em 0,3%. Outras áreas sob proteção rigorosa também registraram taxas inferiores a 0,3%.
“Em outras palavras, essas pessoas já viviam lá e já protegiam o local. Era uma questão de formalização”, afirmou Lobo sobre os territórios indígenas ainda não demarcados.
A conservação nas terras indígenas já aparecia nos dados do Imazon, segundo os quais esses territórios concentraram apenas 1,7% da área desmatada no último ciclo, apesar de ocuparem 23% do bioma.
Assentamentos aceleram o ritmo
O ritmo anual mais acelerado de desmatamento ocorreu nos assentamentos de reforma agrária. Quinze anos após sua criação, 24% das áreas úmidas haviam sido convertidas para usos humanos, ante 8,5% antes da instalação. Segundo o estudo, esses programas exigem que os ocupantes destinem a terra ao uso produtivo, mas oferecem pouco monitoramento ambiental ou apoio a meios de subsistência alternativos.
Nos assentamentos de reforma agrária sustentável, onde as famílias detêm a posse coletiva da terra e extraem produtos florestais, a conversão foi mais gradual: de 2,4% para cerca de 3,5% no mesmo período.
“O problema está no modelo”, resumiu Lobo. “O que separa as categorias que conservam das que não conservam não é apenas ter um proprietário, mas ter regras.”